Escada acima, escada abaixo,  lá fora derrota-se o vírus

Há um mês, o LRM, partido do presidente francês Emmanuel Macron, viu-se num berbicacho. O seu candidato à câmara de Paris tinha sido apanhado por um escândalo sexual, coisas antigas que acontecem na política, mas com aquela modernidade de dados, vídeos e internet, que não permitiam negar.

Urgia substituí-lo. A 17 de fevereiro, o partido lançou nova candidata, Agnès Buzyn, ministra da Saúde! Repararam no ponto de exclamação? Pois, parece mais um exemplo daqueles que o jornalista Paulo Pena, aqui no DN, mostrou recentemente como a expressão tão nossa "isto só mesmo de tuga!", afinal é universal. Já a 17 de de fevereiro, se de coronavírus só se conhecia o da chinesa Wuhan e o do barco de cruzeiros Diamond Princess, a pandemia mundial já era previsível...

Então, a ministra da Saúde francesa, e médica, na iminência de uma crise sanitária gravíssima (e não falo das fotos pornográficas do outro), foi convencida pelo seu partido a ir tapar um buraco algures. Demitiu-se e lá foi ela para a campanha. No domingo, depois de ter ficado em terceira posição, Agnès Buzyn deu uma entrevista ao jornal Le Monde. Nota do jornal: fartou-se de chorar durante a entrevista. "Devíamos ter parado tudo, foi tudo uma fantochada", disse da campanha a ex-ministra. E confessou: "Quando abandonei o ministério sabia que vinha aí um tsunami".

Os mais cínicos podem julgá-la arrependida só porque fez uma escolha perdedora, afinal ela não será a prestigiada maire de Paris... Mas como não conheço a senhora, seria mais útil tirar deste caso uma lição para todos nós. Claro que o arrependimento de Agnès Buzyn é acrescido por a falta ter sido pública, mas devíamos ver na dor dela o reconhecimento de ter falhado numa obrigação histórica. Como um jovem inglês, em 1945, a quem se perguntasse "que fizeste durante a guerra?", só tivesse para responder: "Os meus pais mandaram-me para a América, estive a estudar em Harvard." Não, ele não diria isso. Seria o primeiro a não ter vontade de dizer que estudou em Harvard...

Esta deambulação por uma campanha eleitoral a que não ligámos grande coisa (nem sabemos como acabou, se vai haver ou não segunda volta) é porque - de Paris a Harvard e Lisboa, passando por Ovar - vivemos num tempo novo. "Isso foi naquele tempo...", dizemos hoje do que se passou há dois meses. "Éramos felizes e não sabíamos", dizia hoje um barbeiro venezuelano em Madrid, na crónica de Iñigo Dominguez, no El País.

Hoje, este tempo, é o coronavírus. É vírus, é besta e sobre ele não podemos exprimir nenhum sentimento moral. Mas ele influencia-nos completamente, todo o nosso corpo e mais e mais.

Lavemos as mãos e mas não passemos distraídos pela grandiosidade dos dias. Na Cartuxa de Parma, Stendhal põe o personagem Fabrice, perdido, a atravessar um campo de batalha - só porque ele ouve o nome do marechal Ney se dá conta que está a meio da batalha de Waterloo... Todo o DN se faz em tele-trabalho, e é da secretária de casa, no 5º andar, que escrevo esta crónica. Suspendo a escrita de cada vez que ouço tacões de sapatos soando pela escada comum - fugindo ao elevador, demasiado concorrido, e aos seus botões de metal. Não sou distraído, paro de escrever. Homenageio o clap-clap... - lá fora, reage-se, combate-se.

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