E a dez dias da meta a diferença estreita

Ontem, num comício no estado do Iowa, Hillary Clinton avisou: "Donald Trump diz que ele ainda pode ganhar, e, sabem vocês, ele tem razão. Tudo pode acontecer nestas eleições." Ela não se referia àquele estado do Midwest onde as sondagens dão atualmente um empate, mas à votação nacional, apesar de ela ter aí um avanço médio de 5% a 6%. Talvez Clinton estivesse a prevenir contra um amolecimento de entusiasmo, próprio dos que vão à frente numa campanha, talvez. Mas o momento político deste fim de semana, a dez dias do 8 de novembro decisivo, é definido por um ligeiro aproximar de Trump e por um sentimento de que alguma coisa estranha pode estar mesmo incluída naquele "tudo" da candidata democrata.

Ontem, também o Politico, influente site de jornalismo político, divulgava um estudo que fez nos meios republicanos dos estados dançarinos. O site concluiu que as sondagens, ultimamente favoráveis a Hillary Clinton, poderiam estar viciadas por uma camuflagem, individual e não organizada, dos inquiridos. O "efeito Bradley" poderia estar a atacar as indicações de voto... Em 1982, Tom Bradley, o mayor negro de Los Angeles, concorreu a governador da Califórnia e as sondagens davam-no como vencedor seguro. Acabou por perder, porque muitos dos sondados, que haviam dito que votavam nele, com receio de passarem por racistas acabaram, no segredo das urnas, por não o fazer. Segundo o Politico, o mesmo poderia estar a acontecer com Donald Trump.

A vergonha, desta vez, não será por razões raciais, por votarem no candidato de melenas louras, mas por causa das ideias polémicas de Trump. Responder a uma chamada telefónica, como fazem as sondagens, sobre as preferências políticas é um pouco como falarmos num barbeiro. Apesar de a toalha tapar parcialmente a cara, em algum momento mais tarde é possível saber-se quem somos. O que diz Trump é embaraçoso e nem todos que lhe perfilham as ideias estão já capazes de o admitir, por isso escondem o sentido de voto pelo polémico candidato. Mas talvez ele seja menos controverso quanto se pensava. O site resumiu o seu trabalho, assim: "As sondagens não captam o segredo do voto Trump."

Em todo o caso, o aviso de Hillary Clinton, "tudo pode acontecer", soa a verosímil porque de facto tudo já está a acontecer. Tudo ou pelo menos o suficiente para dar crédito a hipóteses absurdas. A posteriori, se houver vitória de Donald Trump, não será difícil encontrar prenúncios para ela. Ao correligionário John McCain, respeitado senador do partido de ambos e herói de guerra, ele acusou de se ter deixado aprisionar pelo inimigo... Ele, Trump, que fugiu a essa guerra do Vietname pretextando uma incapacidade suspeita. Contra a adversária Clinton, ele incitou a Rússia, tradicional potência inimiga, a revelar o que se espiou sobre ela. Trump pode ser acusado de tudo menos de ser pouco ousado na provocação. E, apesar da sua pouca-vergonha sistemática e aberta, a campanha eleitoral tem-se mantido renhida.

Donald Trump é extraordinariamente mau comparado à bitola a que a política americana de topo nos tem habituado. Mas talvez se deva dar-lhe o crédito de ter percebido que não estava tão só quanto se julgava.

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