Que um sangue impuro

Mikael Batista, lembra-se? Há um ano foi anunciada a morte deste luso-francês de 23 anos que partiu para a Síria em agosto de 2013 para combater nas fileiras do Daesh. Mikael fora notícia em Portugal, em setembro de 2014, por, filho de portugueses de Chaves emigrados para Paris, ter sido entrevistado pelo Expresso via Facebook.

Imagine agora que Mikael não morreu; que regressava a França e era condenado por terrorismo. De acordo com a proposta de revisão constitucional que levou nesta quarta-feira à demissão da ministra da Justiça de França, Christiane Taubira, os condenados por crimes "contra a nação" (incluindo terrorismo) com dupla nacionalidade poderão perder a francesa. Nesse caso Mikael ficaria - sim, adivinhou - só português. Portanto a sua condenação incluiria a deportação para Portugal.

Serve para quê, esta medida? Desencorajar pessoas de se tornarem terroristas? Sério? Portanto estão dispostos a matar e a morrer mas não a perder a nacionalidade? E retirar a nacionalidade francesa a um condenado que passa, na hipótese Mikael, a ter a portuguesa preencherá que objetivos de segurança? Os de exportar terroristas para outros países?

Não: a medida que levou Taubira - e muito bem - a abandonar o executivo só serve para uma coisa: estabelecer uma distinção entre cidadãos franceses, criando duas categorias: os de primeira e os de segunda. Instituir na Constituição o princípio da discriminação em função do sangue, ou seja, da ascendência e origem de pais e avós; será o sangue a ditar quem é francês verdadeiro ou falso, e o mesmo crime passará a ter castigos diferentes consoante.

Dizem as sondagens que a maioria dos franceses está a favor. A última divulgada fala de 86%, com 67% a "não ver contradição com os valores da esquerda". Isto em França: por cá ninguém parece ralado, como se fosse uma coisa lá deles, no estrangeiro. Como se - já que as questões de princípio e de civilização não nos estremecem a não ser quando está em causa algo que indivíduos árabes ou de "ascendência árabe" façam - não houvesse pelo menos meio milhão de lusodescendentes em França e esta medida não os afetasse diretamente. Como se não estivessem a dias (o governo quer aprovar a legislação em fevereiro) de ser classificados como "franceses impuros".

Quando na grandiosa manifestação que em 11 de janeiro de 2015 homenageou os mortos Charlie se cantou A Marselhesa, Cohn-Bendit comentou com estupor o uso da estrofe "que um sangue impuro ensope os nossos campos": "É de quem não percebeu nada." Um ano depois, é a estrofe maldita e xenófoba que nos ri na cara. É ela, da França à Dinamarca que expropria refugiados e a Gales que os marca com pulseiras fluo, o novo rosto dos "valores europeus". Bastou um ano de medo para fazer párias dos nossos bons princípios; quatro meses para que já não queiramos saber o que sucede aos Aylan Kurdi; 71 anos para perdermos a vergonha. Puro ou impuro, o que nos corre nas veias é nada.

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