Do sótão de Belém

Tenho o direito e o dever de apresentar as coisas tal como aconteceram. Aqui fica a minha verdade, para que a mentira não passe incólume à história." Estas palavras, da autoria de Fernando Lima, o ex-assessor e ex--não-se-sabe-o-quê-durante-os-últimos-seis-anos-de-mandato-presidencial de Cavaco, não são do livro que hoje, quinta-feira, quando escrevo, é lançado, e no qual procederá à denúncia de um imenso puzzle de conspirações, vigilâncias e escutas de que, crê, foi alvo e vítima central, e cujas provas, incluindo comentários anónimos no site do DN e homens de óculos escuros em esplanadas, coligiu nos seis anos em que foi de castigo para o sótão de Belém, sem funções atribuídas.

Não; as palavras citadas são de um texto publicado por Lima em janeiro de 2010 no Expresso, intitulado "A minha verdade", e no qual asseverava ser a notícia do Público, de 18 de agosto de 2009, em que se dava conta de suspeitas da presidência de estar a ser vigiada pelo governo de Sócrates, uma invenção do jornal (fala até de "delírio") a partir de "uma resposta irada ditada pelo absurdo das questões" e transformada em "suspeitas gravíssimas", "numa capa inesperada" que foi "pretexto para fazer explodir a armadilha". A armadilha sendo, explica Lima, a "tentativa de trazer o PR para a liça política" a escassas semanas das legislativas de 27 de setembro de 2009. Exposto como a fonte anónima do "delírio" através da divulgação, pelo DN, a 18 de setembro, de mails trocados entre jornalistas do Público, mails cuja veracidade nega no citado texto ("sem correspondência com a realidade"), o então subordinado de Cavaco enoja-se com o facto de a notícia do DN ser "construída com base numa eventual conversa pessoal obtida pela violação assumida do segredo profissional".

Obrigatório recordar este nojo de Lima, assim como a sua "verdade" de 2010, quando em 2016 revela que o PR lhe deu ordem para a denúncia, ao Público, das "suspeitas de vigilâncias" relacionadas com uma visita à Madeira em 2008 - a "denúncia" narrada nos mails que o DN publicou. Portanto Lima 2016 desmente Lima 2010, viola o segredo profissional e confirma a importância da notícia do DN, ao acusar Cavaco de estar por trás das notícias que saíram no Público e portanto da tentativa de interferir, a coberto de fontes anónimas e insinuações, na "liça política" - e nas eleições. O "delírio" passa a verdade - e a total mentira a célebre comunicação que Cavaco fez ao país sobre o caso.

É repulsiva esta história de vingança, decerto; mas também moral. E o que esta, a moral, diz é que só quem não quis ver não viu que o PR, ao afastar o assessor de funções mas mantê-lo ao serviço estava a calá-lo, e à custa do erário público. É um segredo de Polichinelo, o que Lima trouxe do sótão de Belém - a ver se agora, que está exposto, continua tudo a assobiar para o lado.

Nota: Conheci Lima como diretor do DN, em abril de 2004, quando, vinda de uma publicação do grupo, passei para a redação do jornal com o qual colaborava desde 1998. Não tivemos uma boa relação mas a convivência foi breve: Lima, que entrara no jornal em outubro de 2003, sob protesto da redação, saiu em outubro de 2004.

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