Passos Coelho. Sozinho mesmo?

Isto funciona tudo em marés: ora na mó de cima, ora da mó de baixo. Nunca há um meio-termo para nada quando falamos de políticos. Vejam, por exemplo, o que aconteceu com António Costa: antes das primárias socialistas, Costa era quase unanimemente o homem certo para derrubar Passos. Depois chegou a pressão, algum silêncio, a campanha eleitoral - e logo António Costa passou a ser uma desilusão. Até à geringonça, que foi a surpresa com que Costa virou a maré: do líder que só queria o poder, ele passou a brilhante negociador político.

Vamos então ao homem que está na mira neste fim de semana? Passos Coelho começou por ser um líder auspicioso. Depois foi neoliberal e primeiro-ministro mal-amado. Até que a maré virou contra Costa e Passos passou a ser um político hábil, aquele que sem programa, depois de três anos de troika, até conseguia vencer eleições.

Passaram apenas seis meses das eleições, pouco mais de cem dias desde que Passos virou (de novo) líder da oposição. E hoje, lendo e ouvindo o que dizem os protagonistas, dentro e fora do PSD, Passos é de novo o bicho-do-mato, aquele que o PSD só reelegeu por agradecimento, mas a quem reclama que se transforme.

A política é assim mesmo. Ingrata? Injusta? Nada disso: imediatista. Os partidos exigem aos seus líderes que tenham lucro imediato, que tenham a crítica certa, dia a dia, na ponta da língua. Que tragam aquela ideia nova que faz com que tudo mude. Que mostre a habilidade dos números de circo, porque a entreter o povo também se o alimenta.

Passos Coelho, porém, é o inverso disso. Pouco dado a soundbytes, a discursos marcantes. É um líder partidário previsível, de ideias conhecidas e nem sempre simpáticas ao ouvido.

Pior, Passos tem hoje outra coisa contra si: ele é o cimento da esquerda, uma garantia de que ela continua unida. E, curiosamente, sendo o cimento da esquerda parece ter deixado de ser o cimento da direita.

Dito isto, a verdade é que Pedro Passos Coelho é o líder político mais subvalorizado da política portuguesa. É frio, resistente, persistente, de ideias fixas. É imune a horários televisivos, a inversões de marcha, às polémicas do dia-a-dia.

As sondagens apontam-nos sistematicamente como um líder mal-amado. E mesmo assim foi o único líder do PSD, além de Cavaco Silva, a ganhar duas eleições, a última das quais ao PS de António Costa.

É por isso que, quando ouvimos falar de Passos Coelho, convém ter um certo distanciamento em relação às marés: é que ele costuma andar em contraciclo. E o sucessivo anúncio da sua morte acabou por se revelar sempre precipitado.

Foi de novo contra as marés que Passos se relançou na corrida à liderança. Agora da oposição. E assim entrará no congresso do PSD: sem surpreender, sem virar corações. Nem dos comentadores nem dos históricos de ontem e os de amanhã, como Rui Rio, Manuela Ferreira Leite, Morais Sarmento, Paulo Rangel, José Eduardo Martins, Pedro Duarte. Se estiver desatento, ou simplesmente seguir a maré, Passos parecerá um líder sozinho.

Mas a verdade verdadinha é que o PSD de hoje não é o PSD de Cavaco nem o PSD de Barroso, ou de Santana ou de Manuela. O PSD mudou por dentro e é uma fiel imagem do seu líder. Queira ele continuar e dificilmente veremos outro no seu lugar, mesmo que António Costa consiga sobreviver dois anos, três anos, ou que leve a sua geringonça até ao fim. Passos tem o partido ao seu lado, mesmo sem surpresas, mesmo com Marcelo em Belém.

E mesmo fora do PSD, Passos não estará tão sozinho quanto parece. E nem lhe faltam as ideias, contrariamente ao que lhe é reclamado pelos históricos.

Apenas recorrendo à última semana, bastará ler o que dizia o último relatório do Banco de Portugal, o último do BCE ou o do FMI sobre Portugal para perceber que há mais quem entenda que as reversões não são boa ideia, que as novas políticas são um risco - e que o caminho devia ser outro, mesmo que menos entusiasmante.

Sim, verdade que, dizendo isto, parece que a única conclusão possível é que, ao entrar no congresso do PSD, Passos Coelho parecerá - aos mais desatentos - um Marechal Pétain na França ocupada durante a Segunda Guerra Mundial. Mas não se iludam: aos olhos do PSD que o segue, Passos resistirá, como se fosse René Artois, o dono do café da série Allo Allo!, meio sem jeito, mas acreditando que a maré vira e que o quadro se salva.

Eu, que estarei no congresso tentando fugir ao que parece óbvio, sei bem que nem Portugal é a França ocupada pelos nazis nem Passos é Pétain ou René Artois. Mas estou convencido disto: com ele, convém não precipitar julgamentos. O homem é um político sobrevivente. E pelo que vejo só as próximas legislativas o podem deitar abaixo. Ou não.

Isso não é mau: ao menos entre Passos e Costa temos realmente alternativas. E sempre é bom termos por onde escolher.

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