Orientação precisa-se

No caos que se vai instalando no mundo, com uma personalidade desequilibrada e imprevisível na liderança do país mais poderoso, com uma Europa dividida e sem rumo, Portugal aparenta uma situação de estabilidade, sem partidos à direita hostis ao projeto europeu ou defensores de posições radicais de desrespeito pelos princípios humanitários relativamente a imigrantes ou refugiados, como está a suceder em vários países que nos são próximos. E os partidos da esquerda que apoiaram o PS na formação de uma maioria parlamentar, embora muito ativos na contestação social (PCP) e com forte influência nos media (BE), não têm levado o governo para soluções que ponham em causa o património histórico do PS, a aposta no projeto europeu, na Aliança Atlântica e na comunidade dos países que falam português. Mais difícil é manter o país num rumo que promova crescimento económico e contas públicas saudáveis.

Mas todos vemos que esta aliança tática da esquerda já viu melhores dias e as contestações dos sindicatos da administração pública sobem em exigências impossíveis de satisfazer, tornando a negociação do próximo Orçamento um campo de batalha perigoso para a frágil situação financeira do Estado.

Por isso precisávamos de uma alternativa preparada para a incerteza que se aproxima. No atual contexto partidário, só o PSD está em condições de a criar. Mas o estado deste partido está longe de garantir, até aos seus eleitores mais fiéis, uma alternativa credível, quanto mais ao eleitorado do centro, que oscila entre PS e PSD.

Note-se que não se trata de um problema de agora, com a liderança de Rui Rio. Vem de longe a desorientação sobre questões muito simples, em que a posição dos partidos que representam toda a população que não depende do Estado, que pouco usufrui dele quando comparado com o que contribui para o seu funcionamento, deveria ser relativamente clara e coerente. Ou seja, deveria ser a defesa desses eleitores, perante um Estado voraz, com necessidades nunca satisfeitas e sem apresentar resultados nos serviços que presta aos cidadãos correspondentes aos custos que absorve. O exemplo da posição dos partidos da direita perante a reivindicação dos sindicatos dos professores e perante greves que afetam gravemente os alunos e as suas famílias é a este título paradigmático. Só poderia ser de moderação, na defesa do interesse coletivo - os contribuintes - e dos alunos e das famílias afetados.

Mas o que se tem visto é uma cacofonia sem sentido nem coerência.

Vem a propósito um tema sobre o qual Maria de Lurdes Rodrigues - uma voz lúcida a ler sempre com atenção no DN - nos tem alertado: o grave problema do bloqueio da mobilidade social em Portugal que ontem, uma vez mais, abordou na sua coluna neste jornal.

É muito triste a baixíssima perspetiva de um filho de pais com poucos recursos vir a ocupar um lugar de relevo na sociedade e em especial no mundo empresarial. Isto conduz-nos aos problemas das falhas da escola pública na formação dos que dependem dela. Os pais que têm possibilidades de optar pelas escolas privadas acham bem aplicar os seus recursos na melhor formação dos seus filhos, que naturalmente terão melhores oportunidades no mundo do trabalho. Fazem-no porque não confiam na escola pública, pois se confiassem certamente não faziam o sacrifício que corresponde ao custo das escolas privadas.

Referindo-se ao sistema público, Maria de Lurdes Rodrigues, no seu artigo ontem publicado no DN, diz-nos que não se trata apenas de escassez de investimento na educação, "mas também problemas de desempenho no funcionamento do sistema educativo". Pois. A instabilidade crónica do sistema gerido pelo Estado, como se vê diariamente nos confrontos dos sindicatos dos professores com todos os governos, de esquerda, de direita ou do centro, poderia dar melhores resultados?

Uma declaração pessoal: a minha mãe foi professora da escola primária e eu só frequentei estabelecimentos públicos. Tenho grande respeito por essa profissão.

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