Verdes: pode haver Política com olhos no longo prazo?

Finalmente um desafio capaz de mudar o paradigma. Governos de quatro anos pensam a quatro anos. Gerem a economia para ter resultados que garantam a vitória no final desse prazo. Fazem os cortes nos primeiros dois anos e dão as benesses nos dois últimos, sabendo quão vaga é a memória do eleitorado. Mas, e agora? Se a onda verde crescer politicamente pelo mundo, não adianta atirar uns amendoins aos circunstantes. Enquanto a Economia e as Finanças são fluidas e relativamente manipuláveis, o Ambiente não. As alterações climáticas são um dossier para décadas. A mudança de hábitos também. Como podem os atuais atores políticos habituarem-se a pensar além dos quatro ou cinco anos dos mandatos?

Eis o fator mais estimulante de todos os que surgiram depois destas eleições para o Parlamento Europeu. Sim, há um ligeiro crescimento populista mas, afinal, há mais gente preocupada com o planeta e a solidariedade humana do que em excluir os outros - e estes foram os vencedores por terem emergido como forças credíveis e capazes de influenciar o poder.

Note-se só até que ponto a História entrou em aceleração: em 2014, os Verdes e os Liberais valiam em conjunto 137 deputados europeus - contra 221 do PPE (direita) e 191 dos socialistas europeus.

Depois de domingo, estas duas forças representam 174 eurodeputados (105 Liberais e 69 Verdes), apenas cinco deputados menos que o PPE (179) mas já substancialmente acima dos socialistas (153). europeus encolhem 13 lugares (ficando com 166).

Mais importante: em 2014 os partidos pró-Europa valiam 529 deputados e agora 506 - ainda assim um peso esmagador face ao total de 751 eurodeputados. Ou seja, mais de dois terços dos votos, apesar de cinco anos caóticos a destruir a Europa com temas como emigração, Brexit, Trump e "fake news" (manipulação da informação).

Com esta base, as diferentes coligações que se irão formar no Parlamento Europeu, dossier a dossier, vão permitir aos eurodeputados confrontarem a Comissão Europeia e o Conselho Europeu com visões obrigatoriamente de longo prazo, sobretudo quanto a esse grande consenso que são medidas para combater as alterações climáticas.

Veja-se o que aconteceu um pouco por todo o lado: os Verdes alemães chegaram a um recorde de 20% e tornaram-se no segundo partido; em França, com 13%, são o terceiro partido;

Entretanto, há um padrão "verde": 16% na Finlândia, 14% na Áustria, 13% na Dinamarca, 11% na Suécia, 12% no Reino Unido, 10% em Espanha. Portugal, contado o PAN e o Livre (as duas forças mais centradas na questão ambiental), seriam 7%.

No entanto, o essencial passa por duas questões simétricas: por um lado, o que fazem os partidos do "sistema" com o tema verde. Ninguém pode ignorar o assunto - e há muito eleitorado, sobretudo à esquerda, com preocupações ambientais apesar de se rever na ação política do PS, Bloco e CDU. Depois, porque as alterações climáticas são tão transversais e graves que a sua gestão obriga a pensamento fora da mera tática política.

É por isso que esta subida ecologista pode ser a melhor forma de trazer a democracia às novas gerações. Ela alia a necessidade da política (gestão da polis, da res publica) às medidas em concreto. A política como instrumento real de uma causa tão vital para o futuro de todos como é a sustentabilidade do planeta.

Este é talvez o único fator positivo da grave crise que atravessamos. Se as novas gerações compreenderem que a sua voz, o seu voto, a sua ação, pode mudar o mundo, então salva-se a democracia e reforça-se a paz. Falta garantir que o radicalismo ideológico que, muitas vezes, os partidos "verdes" trouxeram do marxismo-leninismo, fica definitivamente enterrado em nome do fim real da causa verde.

Por fim, deseja-se que este agregado tão difuso chamado "Verdes" não se encandeie com resultados de curto prazo, apenas para ganhar votos, como é corrente.

Dito isto, é todo um mundo novo, extraordinário, que se abre, a partir daqui. 26 de Maio foi um momento de justo otimismo para a nossa vida europeia e para o clima porque a Europa é o único farol da salvação do planeta.

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