Os média alertam, os políticos repetem, o povo assusta-se. A Covid não acaba?

Apesar de Graça Freitas ter dito que a situação de Lisboa está estável, o Presidente da República (de acordo com as notícias) veio mostrar preocupação e o PSD avançou que está também muito preocupado e quis, aliás, deixar em primeira mão a ideia de que Lisboa vai confinar qualquer coisa. A oposição, de esquerda e direita, não pode deixar de estar ainda mais preocupada porque percebem que os média estão a assinalar preocupação e isso é popular e prudente, e há um planalto de casos que não desce, e depois aqui e ali os sinais de desrespeito às regras de distanciamento social acontecem, com algo novo e muito preocupante. Tão preocupante que câmaras de televisão detetam (por medição laser, talvez) os incumprimentos da distância de segurança entre banhistas na praia de Carcavelos ou no abuso dos passeios à beira-mar ou ao Sol, sem quaisquer dúvidas. As consequências, como gostam de dizer, estão à vista: subida de casos - 304 ontem, sabe-se lá quantos hoje e amanhã (mas sempre menos à segunda-feira que o vírus não trabalha aos domingos).

Sim, o caos. Estamos no caos. Nas curvas do vírus já estamos afinal acima da Alemanha e Itália, e os nossos números (vide Paulo Portas) estão cada vez mais estratosféricos face aos da Áustria, República Checa ou aos da suprema qualidade da Nova Zelândia. Ah, e o sucesso da Coreia do Sul! Afinal a capital Seul confina a partir de hoje por duas semanas.

Tudo isto é de nos deixar justamente pregados de medo, e afinal vamos falhar, e fechem já Lisboa por favor por favor por favor!

Ou não.

Lembram-se como é que começou o confinamento? Muitos casos iam rebentar com o SNS. Na altura, cada caso era um "caso", ou seja, pessoas acorriam às dezenas para testar porque tinham sintomas. Estavam realmente doentes. Era absolutamente necessário parar. Portugal venceu essa primeira batalha.

Hoje as coisas são diferentes. Os "casos novos" resultam de testes de quem tem sintomas, mas muitos outros são mera prevenção ou medição de contágio em grupos específicos. Estes "testes forçados", positivos, são quase todos assintomáticos. Mas os jornalistas ainda estão na fase dos "casos novos" e dali não saem, apesar do mundo ter mudado. E podiam, porque o novo indicador epidemiológico-social relevante é outro. A tal curva achatada do SNS. Exato, ainda existe.

Ou seja, o vírus continua a evoluir lentamente, e assim será até haver 60% de imunidade da população - ou então a vacina. Enquanto os média acharem que o combate é pela erradicação da Covid-19 vão continuar aos gritos por 300 casos!, 200 casos!, 94 casos!, etc., não valorizando a condição essencial: um Serviço Nacional de Saúde não se assusta com 300 casos novos diariamente.

A realidade de Maio nega o vício do alarmismo. Os internados descem quase todos os dias, consecutivamente (512). Desde terça até ontem tivemos mais de 700 casos novos e uma subida de apenas duas pessoas nos hospitais (e já lá tivemos 1301 internados). Felizmente há apenas 65 doentes nos cuidados intensivos, valor que não era tão baixo desde 27 de Março.

Então, repare-se, há 200 ou 300 casos diários e cada vez menos gente nos hospitais? Sim. Veja-se o caso Sonae Modelo Continente, na Azambuja: 833 pessoas testadas, 175 casos positivos, dos quais apenas 1 nos hospitais. Pois isto é exatamente o perfil do que está a acontecer na sociedade portuguesa. Alguma disseminação do vírus e poucos casos sintomáticos/graves, felizmente.

Pode tudo mudar? Pode. Devemos estar ultra-vigilantes e com medidas de proteção social mútuas? Sim. Mas temos de confiar na DGS e, se possível, nos média. Para isso as televisões e jornais não nos podem dar apenas dois tipos de notícias: a catástrofe que aconteceu e a catástrofe que pode vir a acontecer.

Hoje, dia 29 de Maio de 2020, Portugal continua a fazer a melhor das duas estratégias: SNS aliviado, imunidade lentamente a desenrolar-se. A vida prossegue e estamos todos a tentar obter mais saúde e aproveitar a fase onde há menos gripe (que se confunde muito com a covid). Será essencial vivermos estes meses sem uma coleção alvoroçada de maus sinais e pequenas más notícias, como se estivéssemos a viver o fim do mundo. O stress mata.

E lamento, há boas notícias em Portugal. A notícia-manchete desta semana deveria ter sido consecutivamente esta: cada vez menos internados (mesmo que ontem tenha subido de 510 para 512). Aliás, o melhor facto tem sido o do número nos cuidados intensivos estar sempre a descer. Há algo melhor para dar sinal de confiança aos portugueses?

Ontem o Presidente da República disse duas vezes que não há um descontrolo em Lisboa. Acrescentou, como é normal, as palavras serenas de "atenção" e "preocupação". Estamos de acordo que "descontrolo" é uma palavra mais forte que "preocupação"? Ele disse: "não há descontrolo" (duas vezes). Quais foram os títulos por todo o lado? "Marcelo preocupado". Assim não vale a pena ouvir notícias.

A situação em Lisboa pode piorar? Sim. Mas não com estes indicadores de ontem, como disse a diretora geral. Não há um problema geral que possa provocar já um novo confinamento parcial, como ontem já esteve à vista nos jornais televisivos das 20h. Azambuja e Seixal não são uma capital inteira.

O vírus vai ficar connosco para sempre. A infeção controlada/imunidade faz parte do processo natural. Portanto, antes de acentuarmos uma sistemática depressão na cabeça dos idosos (e da população em geral), olhemos para os hospitais. Têm cada vez mais camas livres? Sobram muitos ventiladores? Estamos a fazer socialmente tudo para protegermos a sociedade? Então, a probabilidade de tudo correr bem é muito alta porque o vírus, como dizia a cientista Maria Manuel Mota, não é muito letal. Mesmo para quem tem mais de 70 ou 80 anos, há mais de 80% de hipóteses de tudo correr bem. Um dia de cada vez. Essa é que é nova vida covid.

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