Faltará o ar. Será importante?

Penso muitas vezes que a sociedade portuguesa seria melhor se, além de fluor, fosse adicionada à água pública umas gotas de Cholagutt, a solução mágica que resolve problemas hepáticos ou de vesícula e está à venda em qualquer farmácia.

Sem bons fígados também não há bons textos de opinião ou redes sociais civilizadas porque as palavras acabam por ser essencialmente bílis corrosiva lançada no espaço público sem que os próprios percebam o que indecorosamente de si emana, qual a razão porque isso acontece, e o dano social que provocam.

Vem isto a propósito das reações escatológicas contra a Greta - que é essencialmente uma boa pessoa. Aliás, tão boa que quer o melhor até para os que a odeiam.

E o que quer Greta? O mesmo que o maravilhoso professor de Coimbra, Jorge Paiva, biológo de 85 anos, um tratado científico com pernas.

Ouvi-o recentemente no magazine de ambiente da RTP2, o Biosfera (de que fiz parte durante muitos anos). É cada vez mais raro encontrar pessoas que emitem palavras propulsionadas pelo órgão certo: o cérebro. Por força dessa catrefada de ciência, neste caso Biologia, maço os leitores com ideias simples sobre esta nossa vida comum num local a que Jorge Paiva chama de "Gaiola".

1. "As pessoas esquecem que vivemos numa gaiola - o globo terrestre. Dentro desta gaiola, as árvores têm um papel muito importante porque elas produzem a sua própria alimentação. Vão buscar o carbono à atmosfera e com a energia solar produzem a biomassa. E nessa reação química produzem oxigénio. Mas a espécie humana é a mais terrível desta gaiola porque tem vindo a derrubar esta floresta. Só temos 20% de toda a floresta que já existiu neste globo terrestre antes de nós aparecermos.

2. Nos piores cinco anos desta década desaparecerem 13 milhões de hectares de floresta.

3, No Brasil só existe 6% da floresta atlântica que existia quando os portugueses descobriram o Brasil.

4. Há países que sabem viver da floresta e obrigam a replantar. Só permitem vender a madeira depois da fiscalização verificar que foram plantadas mais árvores do que as que foram cortadas. Portugal era coberto por carvalhal, de Norte a Sul, e fomos cortando. E neste momento sinto vergonha de ser português porque temos de importar madeira de carvalho de França para as pipas de vinho do Porto.

5. Cada carvalho (repleto de ecossistemas) produz mais oxigénio que um prado inteiro.

6. Nas florestas tropicais - da Amazónia, África e Ásia - há árvores com 120 metros: produzem mais oxigénio que todas as árvores do Gerês num ano. É por isso que são muito importantes.

7. Depois da revolução industrial emitimos para a atmosfera mais de 70 mil produtos químicos e quando chove, em muitos sítios, essa água não é potável.

8. Como os índios viviam da floresta, em Portugal também vivíamos da floresta - comíamos pão de farinha de bolota, castanhas, cerejas, maçãs bravas e vivíamos da caça. Neste momento chamam floresta a uma coisa que eu não chamo floresta - a floresta de produção, como o eucaliptal e o pinhal. É evidente que nós já fazíamos florestas de produção monoespecíficas: montado de azinho e montado de sobro, por exemplo. Mas essas árvores estão espaçadas e o incêndio não se propaga tanto. Além disso, como fica espaço, o Sol chega ao solo, e há ervas e arbustos, e pode-se pastorear. Como estamos numa sociedade que pensa no lucro rápido e no máximo possível, encostam os pinheiros e os eucaliptos de tal maneira que o Sol não chega ao solo e não há biodiversidade - para dar dinheiro a determinadas multinacionais. E ainda não disseram isso ao país.

9. Nenhum Governo até hoje ordenou a floresta porque isso demora muito tempo, dá muito trabalho e não se vê na legislatura em que estão a governar, só se vê anos depois.

10. A conversa é sempre a mesma: o problema económico. Esquecem-se que se acabarmos com as florestas - e já só temos 20% da que existiu - vão haver epidemias. Mas não são como a pneumónica, que matou milhões de pessoas com uma bactéria. A epidemia que vai haver é quererem abrir a boca para respirar oxigénio e não o ter. Estamos a dar cabo das maiores fábricas de oxigénio e não há dinheiro que pague isso.

11. A pasta de papel traz muitas divisas. Mas eu preferia que o meu país produzisse muitos produtos alimentares e os exportasse - e essas divisas fizessem o mesmo papel que a pasta de papel.

Jorge Paiva diz estas coisas (e muitas outras) há muitos anos. Só as vítimas de 2017 permitiram gerar atenção ao desastre da floresta portuguesa anunciado há décadas. O ministro do Ambiente disse ontem na SIC Notícias que o Governo pretendia intervir em 1/5 da paisagem para finalmente tentar reconstruir o mosaico e, espera-se, mais floresta autóctone. Finalmente a palavra "mosaico" (agricultura, floresta diversa e pasto) aparece no cardápio de soluções. Reduzir para metade a área ardida em 10 anos, e estancar 80% das ignições, contribuiria enormemente para diminuir as emissões nacionais de dióxido de carbono para a atmosfera. É desta?

Claro, os encantadores de serpentes podem continuar a vituperar a miúda sueca. Mas não se enganem: há problemas brutalmente reais que as bobagens não escondem. Por exemplo, "Pedrogão". Algo a dizer?

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