A lógica de Trump

A primeira impressão de quem acompanha a política norte-americana é que as decisões tanto de política interna como externa e de economia são tomadas impulsivamente, como quem não consegue se conter e dispara tweets que redefinem em 280 caracteres toda a forma como os EUA se posicionam em relação às questões fundamentais que estão acontecendo. No entanto, existe um fio condutor que guia todas as medidas e, apesar de responderem a apelos do dia-a-dia, procuram um objetivo: ganhar eleições.

Um primeiro exemplo é o da imposição de tarifas de importação por parte das autoridades americanas a produtos importados - inicialmente a proposta era para todos os países, neste momento centra-se no que é produzido na China. O anúncio surgiu a meio de uma disputa para um lugar na Câmara dos Representantes pelo círculo eleitoral de Pittsburg, na Pensilvânia, em março. Não se tratava de um lugar particularmente importante: afinal o eleito apenas teria garantido Washington por cinco meses, uma vez que essas eleições intercalares tinham ocorrido pela renúncia do representante. Era um círculo em que Trump tinha vencido por cerca de 20 pontos percentuais, o que deveria dar uma folga para os republicanos. No entanto, faltando duas semanas para as eleições, o candidato do Partido Democrata, Conor Lamb, estava à frente do republicano. Como era um distrito com forte tradição da indústria metalúrgica, no meio da campanha eleitoral o presidente Trump decidiu impor sanções ao aço e ao alumínio importados, tendo chamado operários da indústria do aço à Casa Branca para presenciarem a assinatura da ordem presidencial. Não chegou para derrotar o candidato democrata, mas a guerra comercial tinha começado.

Outra área que revela motivação eleitoral é a política em relação à imigração. O muro com o México tem todos os tons de uma farsa e as imagens de famílias separadas com as deportações de imigrantes que passaram dezenas de anos no país parecem uma crueldade sem sentido. Mas, uma vez mais, essa política tem um objetivo claro: reduzir a "latinização" dos EUA. Os estudos demográficos revelam que a tendência nos EUA é de que os imigrantes devem ser a maioria entre os jovens até 2030 e esta mudança será mais rápida nos estados do Sul, onde o Partido Republicano é maioria. Numa situação em que a maioria dos imigrantes vota nos democratas, uma política restritiva de imigração é um caminho para contrariar essa mudança.

Uma terceira área central nas políticas do presidente é a do ambiente. Com a nomeação de Scott Pruitt, um defensor da extinção da EPA - Agência de Proteção Ambiental - para dirigir essa instituição, começaram a cair as medidas ambientais dos últimos anos. Desde a mineração em áreas de proteção ambiental, a passagem de oleodutos por áreas sagradas dos índios, a retirada de limites de poluição das águas e até às emissões dos automóveis, todas as normas estão sob ataque. As indústrias beneficiadas por essas medidas costumam ser contribuintes para as campanhas eleitorais, o que é fundamental num país onde as campanhas são consideradas as mais caras do mundo e não existem limites à contribuições para candidatos por parte de indivíduos ou instituições.

Outra área em que a atuação da administração Trump deverá ter consequências eleitorais é a política externa. Existe uma tradição americana de que o país se une em torno do presidente em caso de guerra, o que, por exemplo, facilitou a reeleição de George W. Bush após a invasão do Iraque. A substituição do secretário de Estado Rex Tillerson pelo antigo diretor da CIA Mike Pompeo e a nomeação do falcão John Bolton para conselheiro de segurança nacional indicam passos em direção à guerra. Resta saber se o inimigo seria a Coreia do Norte ou o Irão e se o conflito teria como objetivo as eleições intercalares de 2018 ou as presidenciais de 2020.

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