Viagem cultural romena em véspera de centenário

Um filósofo da linguagem observava que, depois de uma pessoa aprender uma língua, esta não poderá voltar a ouvir como aquela língua soa para uma pessoa que não a fala. Por outras palavras, não podemos voltar a perceber a musicalidade pura das sílabas, uma vez que percebemos o significado das frases. Parece que algo semelhante acontece quando nos aproximamos de uma cultura diferente: à medida que nos familiarizamos com essa, o exotismo sentido ao primeiro contacto dissipa-se. Contudo, o preço pago é pequeno face àquilo que ganhamos: o próprio significado por detrás dos sons articulados.

Decerto que, na prática, as coisas não são tão clear cut. No domínio linguístico, há famílias de línguas (como a das línguas românicas, a quem pertencem o português e o romeno), que são mutuamente inteligíveis, pelo menos parcialmente. A entoação e a mímica também podem transcender a semântica dos idiomas, do mesmo modo como na esfera alargada da cultura há territórios e tradições de valores compartilhados, sendo a Europa o melhor exemplo neste sentido.

Quer se desenvolvam entre espaços já próximos, quer aproximem mundos longínquos, os contactos e o conhecimento mútuo representam mais do que uma ocasião de divertimento, encanto ou acumulação de informações: estes são um passo essencial no caminho do imperativo délfico do autoconhecimento. Ao nos fazermos ouvidos e ouvindo-nos uns aos outros, chegamos a ouvir melhor o nosso próprio interior.

Este credo fundamenta a estratégia do Instituto Cultural Romeno, uma instituição chamada a promover no mundo os valores culturais relacionados ao espaço romeno - missão similar àquela de outros institutos como Camões, Cervantes ou Goethe, inter alia, para as culturas por estes representadas. Comunicar além-fronteiras e ir para fora é, nessa perspetiva, um coroamento, um modo de existência plena, e não uma exceção dentro de um organismo, por outro lado, autossuficiente.

A nossa identidade no contexto europeu não é definida por um esplêndido isolamento, mas sim, é alimentada pelas suas proximidades no espaço europeu.

A diplomacia cultural - principal missão do Instituto Cultural Romeno no contexto das novas realidades europeias - envolve a promoção nas luzes da ribalta e a geração de um sentimento de confiança e respeito para com um público amplo.

Grandes artistas do mundo, como a Joana Vasconcelos ou, mais recentemente, Stefano Bollani, prestigiados curadores e diretores de museus famosos foram nossos convidados na Roménia, respondendo ao nosso convite para dar as suas interpretações artísticas a obras tradicionais romenas.

O enlace entre a tradição e a modernidade no domínio das indústrias criativas faz parte da diplomacia cultural, que estamos a desenvolver em 18 países, inclusive a Roménia, situados em três continentes. As indústrias criativas são um motor de crescimento e cooperação cultural, e a criatividade é o recurso com base no qual a humanidade continuará o seu desenvolvimento.

A Roménia encontra-se entre os estados europeus que celebram este ano o seu Centenário. O fim da Primeira Guerra Mundial trouxe-nos, após enormes esforços e sacrifícios, a Grande União de todas as províncias habitadas maioritariamente por romenos com o Reino da Roménia. Os interessados em conhecer melhor o contexto deste ato histórico têm agora acesso a uma obra de referência, editada e traduzida em várias línguas, pelo Instituto Cultural Romeno. Trata-se da História da Transilvânia, da autoria dos historiadores Ioan Aurel Pop, reitor da Universidade "Babeș-Bolyai" de Cluj-Napoca e Presidente da Academia Romena, e Ioan Bolovan, pró-reitor da mesma universidade. O balanço destes 100 anos da Roménia inclui altos e baixos, momentos luminosos mas também bastantes sombras. Agora, no limiar de outro ano aniversário - em 2019 comemoramos trinta anos desde o colapso do regime totalitário comunista - somos, apesar de todos os problemas inerentes ao presente, aquilo que as gerações antes de nós sonhavam ser: um país democrático, aberto ao mundo, parte integrante de uma Europa unida.

Desejamos apresentar ao mundo uma imagem à medida desta oportunidade histórica, com nomes de referência como o de Constantin Brâncuşi, cujas esculturas não deixam de nos surpreender, ou de George Enescu, definitório para o modernismo musical, mas também com artistas emergentes, relevantes para a cultura dinâmica da Romênia atual, artistas, personalidades académicas e grandes campeões olímpicos, tal como Ivan Patzaichin o qual, durante o corrente mês de setembro, foi o líder de uma "Regata da Grande União - a Flotilha a Roménia Centenária", a ter lugar no rio Tamisa. Tudo isso é muito mais do que uma confirmação festiva de uma data na página do calendário, é o nosso desejo de oferecer uma perspetiva sincera e viva de um século em que, por entre alegria e sofrimento, desânimo e renascimento, surgiram na terra romena, e daí partiram para o mundo, obras relevantes para a humanidade e performances memoráveis.

Desejamos uma aproximação ainda maior com o espaço cultural português, em que estamos bem representados pelo Instituto Cultural Romeno, através do qual - beneficiando de uma estreita colaboração com a Embaixada da Roménia em Portugal - damos a conhecer ao público português a cultura romena. Deste modo, estivemos presentes este ano no Museu Nacional de Arqueologia de Lisboa, com a exposição "Ouro antigo. Do Mar Negro ao Oceano Atlântico" e também em algumas das catedrais portuguesas, com uma série de concertos de música clássica, na interpretação de grandes músicos romenos, tal como o violoncelista Marin Cazacu.

Convidámos para Portugal artistas romenos de renome internacional: Tudor Banuș, com uma exposição retrospetiva de autor, Mihai Țopescu, que exibiu recentemente em Lisboa um "Manifesto" criativo pela conservação da natureza, Ștefan Radu Crețu, cuja obra inédita "Voo" poderá ser admirada até o final deste ano, no centro de Cascais, o escultor Mircea Roman, cuja exposição "Sacrifice" estará aberta ao público até 28 de outubro, de 2018, no Mosteiro da Batalha, ou Horea Paștina, o artista cuja exposição se encontra patente na galeria de arte do ICR Lisboa.

Esta sucessão de acontecimentos culturais foi precedida, em 2017, pela celebração dos 100 anos de relações diplomáticas entre Portugal e a Roménia, ocasião pela qual o Instituto Cultural Romeno em Lisboa e a Embaixada da Roménia na República Portuguesa promoveram um programa especial de 12 eventos, representando 12 capítulos da criatividade romena. Eventos como "Um século de cinema romeno" organizado juntamente com a Cinemateca Portuguesa, a exposição "Encenações Portuguesas" do pintor Gheorghe Fikl, no Palácio Nacional da Ajuda, o concerto do Quarteto „Ad Libitum", no Festival Internacional de Música de Marvão, ou a peça de teatro "Gente comum" apresentada no Festival de Teatro de Almada por Gianina Cărbunaru e pelo Teatro Nacional "Radu Stanca" de Sibiu, tornaram-se o cartão de visita que a irmã latina, Roménia, situada no outro extremo da Europa, apresentou perante o público lusitano.

O objetivo de aproximar as duas nações, assumido pelo Instituto Cultural Romeno, visa também promover artistas portugueses no nosso país. Foi dentro deste projeto que organizámos a primeira visita da artista Joana Vasconcelos à Roménia, no âmbito de um programa de mobilidade iniciado pelo ICR, no contexto dos 100 anos de relações diplomáticas entre a Roménia e Portugal.

A atividade do ICR significa promover a nossa cultura e civilização, tanto nos países onde temos as 18 filiais, em três continentes, como em outros países e continentes onde, o Instituto Cultural Romeno através dos seus departamentos especializados, desenvolve também - muitas vezes em cooperação com as nossas embaixadas - projetos em áreas não cobertas pela rede ICR. Implicamo-nos também em projetos e eventos de grande envergadura, com relevância internacional, realizados na Roménia e, ao mesmo tempo, nos dirigimos às comunidades romenas no exterior. Não há uma rotina.

Temos desafios diferentes de semana para semana, de dia para dia, incluindo aquilo de lidar, quase simultaneamente, com a preparação, coordenação e participação em 4 programas de dimensão internacional, com grande impacto para a Roménia.

Para além do Centenário sobre o qual já falei, refiro-me aqui, aos preparativos da Roménia para assumir a Presidência do Conselho da União Europeia no primeiro semestre de 2019, à Temporada Roménia-França e ao Festival Internacional de Arte EUROPALIA, para o qual a Roménia foi convidada para 2019. Por parte da Roménia, o ICR é o responsável pela organização deste grande festival, que decorre a cada dois anos, na Bélgica e nos países dos arredores.

O referido Festival, que iniciou em 1969 e tem um caráter multidisciplinar, destaca-se por eventos culturais e artísticos de alto nível, que refletem de igual modo o passado e a vitalidade da criatividade contemporânea dos países convidados. Embora a organização de um festival como este seja um enorme desafio para o Instituto, somos encorajados pelo facto de os nossos parceiros belgas (presentes quase semanalmente em Bucareste, também como a nossa equipa está frequentemente presente em Bruxelas), estarem muito satisfeitos com a evolução dos preparativos.

Há pouco tempo, o Manager Geral da EUROPALIA International, o Sr. Koen Clement, afirmava que os preparativos do Festival Europalia Roménia estão a decorrer muito bem e a um ritmo acelerado.

"A edição de 2019, em conjunto com a Roménia não só marca o quinquagésimo aniversário, como tem também todas as condições para ser um grandioso festival. Estamos muito entusiasmados com a oportunidade de trabalhar diretamente com o ICR e a equipa romena, pois esta demonstra profissionalismo, dedicação e, provavelmente, a mais importante das qualidades: um entusiasmo autêntico ", observa o Sr. Koen Clement, após uma reunião entre as duas equipas.

Presidente do Instituto Cultural Romeno

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