União Europeia e Mercosul iluminados

O acordo político para um Tratado de Livre Comércio entre o Mercosul e a UE é assinado em Bruxelas, celebrado em Osaka e mantém a dúvida de franceses, polacos, irlandeses assim como de numerosos dirigentes agrícolas de ambas as regiões. Isto demonstra o quanto mudou o comércio internacional desde que se iniciaram as negociações em 1994 e também que a sua importância ultrapassa o plano económico.

Em primeiro lugar, é o primeiro grande acordo transatlântico que se realiza entre uma entidade supranacional como o Mercosul e uma organização internacional como a União Europeia. É, sem dúvida, um acordo do século XXI.

Em segundo lugar, este acordo é o resultado do otimismo e do voluntarismo. A constância de numerosos atores em ambos os lados do Atlântico converteram o otimismo e o voluntarismo em instrumentos fundamentais para superar as barreiras que se apresentaram e conseguiram estabelecer ambas as atitudes como virtudes essenciais destas negociações.

No entanto, o importante, não fica muito visível; a assinatura deste acordo multiplica as possibilidades de um vínculo mais sustentável entre ambos os lados do Atlântico por razões mais substantivas:

É um acordo entre governos que se declaram democráticos. Todos estes governos são imperfeitos em diferentes escalas, mas aumentar o comércio exige garantias de liberdade e concorrência leal, assim como regras claras e previsíveis. Tanto quanto é exigido para que as democracias passem de declarativas a operativas.

Contradiz o sentido conflituoso da globalização. Em particular, mostra outras alternativas para resolver as desavenças e disputas económicas e militares que ocorrem entre vários estados do Ocidente, Ásia, Eurásia e Médio Oriente.

Incentiva a convergência de diferentes entidades regionais no Ocidente e potencia o espaço económico transatlântico na direção do seu vetor sul. Apesar das assimetrias existentes entre estas regiões e no seu interior, o acordo de livre comércio abre mecanismos mais pragmáticos que, por força da realidade, obrigarão a discutir e executar ações em busca de modelos de desenvolvimento mais sustentáveis.

Relaciona sociedades muito jovens (do Mercosul) com sociedades envelhecidas (as europeias), com a vantagem da preexistência de vínculos culturais de longa data que constituem, por si mesmos, uma grande força para desenvolver mercados internacionais.

Neste contexto iluminado da globalização, o anúncio da assinatura, os aplausos e as celebrações em diferentes pontos do planeta não significam que as negociações tenham terminado. Apenas indicam que estas duas regiões abandonam o século XX e que começam a transitar para o século XXI.

Ex-Embaixador do Paraguai em Portugal e investigador do Centro de Estudos Internacionais (CEI-IUL)

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