Sou ou fui fumador(a). E agora, o que posso fazer relativamente ao risco de cancro do pulmão

Todos os anos se assinala o Dia Mundial Sem Tabaco a 31 de maio. Em 2020, este dia assume particular relevância face à associação documentada entre a existência de doenças crónicas e a gravidade de infeção pelo novo coronavírus SARS-CoV-2 que causa a COVID-19.

O tabaco é atualmente o fator de risco mais importante para várias patologias salientando-se as do foro respiratório, cardíaco, cancro e diabetes, entre outras. Os fumadores têm, igualmente, uma maior suscetibilidade a infeções respiratórias por vírus e bactérias.

Estes são motivos fortes para que quem fuma, independentemente da forma de tabaco consumida, concretize a breve trecho o seu projeto de cessação. No entanto, o risco para os fumadores e ex-fumadores não desaparece no momento imediato em que se deixa de fumar, sendo aconselhável averiguar as repercussões do tabagismo na saúde.

Um dos maiores receios de quem nos procura é sempre o de poder desenvolver cancro do pulmão, que constitui a principal causa de morte oncológica a nível mundial. Habitualmente as dúvidas apresentadas em consulta são de natureza variada.

Sou fumador(a), o que posso fazer para não ter cancro do pulmão? Claro que a resposta imediata é procurar diminuir o risco deixando de fumar e para tal todas as tentativas são válidas, sozinho(a) ou com acompanhamento em consulta especializada. Quanto mais cedo esta decisão for tomada maior é o ganho e nunca é tarde de mais. Destaca-se que o problema não se refere apenas ao cancro. Deixar de fumar antes dos 40 anos reduz em 90% a probabilidade de morrer por uma doença relacionada com o tabaco e se se parar de fumar aos 54 anos existe um ganho estimado de 6 anos de vida, em comparação com alguém em que os hábitos tabágicos perduram.

Se já não fumo ainda corro risco de cancro? Sim, embora menor que num fumador e vai diminuindo ao longo dos anos. Mesmo assim, após 25 anos sem fumar o risco de cancro de um ex-fumador é quatro vezes superior relativamente a quem nunca fumou. É também mais elevado nas pessoas que iniciaram o consumo de tabaco em idade jovem, se fumaram muitos anos ou o número de cigarros diários foi elevado. A convivência persistente com fumadores e inalação do seu fumo de tabaco designa-se por tabagismo passivo e é igualmente um dos fatores que gera risco para cancro do pulmão.

Existe algum rastreio que possa fazer? A radiografia de tórax e os testes de sangue disponíveis não possuem eficácia na deteção precoce do cancro do pulmão. Em 2011 um estudo realizado nos Estados Unidos da América (National Lung Screening Trial) demonstrou que a realização anual de uma tomografia computorizada do tórax com baixa dose de radiação - uma TAC com dose reduzida de radiação X e, portanto, com elevada segurança - permitia a correta e atempada identificação de pequenos nódulos nos pulmões, em muitas situações correspondentes a cancro do pulmão em fase precoce, possibilitando um tratamento curativo. Verificou-se com este tipo de exame não invasivo uma redução de 20% na mortalidade por cancro do pulmão. Em 2020 foi publicado um trabalho com população europeia (NELSON trial) que corroborou a eficácia desta estratégia. Portanto, a realização de um TAC de tórax de baixa dose uma vez por ano pode fazer a diferença.

Mas eu devo fazer esta "deteção precoce"? A deteção anual está recomendada em adultos que têm risco para cancro do pulmão, de forma a identificar a doença o mais cedo possível e proporcionar um tratamento com melhores resultados. Entre as pessoas com maior risco encontram-se as com idade entre os 55 e 74 anos, que fumam ou deixaram de fumar nos últimos 15 anos e têm um registo de consumo de tabaco significativo, por exemplo, 20 cigarros por dia nos últimos 30 anos ou 40 cigarros por dia nos últimos 15 anos. Algumas entidades internacionais propõem que esta deteção com TAC de baixa dose seja alargada e realizada entre os 50 e os 80 anos, sobretudo se associada a outros fatores como doenças que propiciam para o cancro ou se existirem familiares em primeiro grau com história de cancro do pulmão. A inexistência de alterações nunca constitui uma licença para continuar a fumar!

E se tiver um nódulo no pulmão então o que me acontece? Neste caso o risco de ser cancro é investigado. Em muitas situações os nódulos de pequenas dimensões são benignos e fazem-se exames de imagem com intervalos específicos para confirmar que não crescem. Noutros casos, se a suspeita de cancro é alta, pode ser necessário realizar uma biopsia ou remover o nódulo pulmonar por cirurgia. Atualmente, na maioria das instituições, as opções sobre qual o melhor passo seguinte são discutidas por um grupo de especialistas que se complementam nas suas competências. Esta informação é depois partilhada com cada pessoa para que se possa alcançar uma decisão conjunta.

Sem dúvida que 2020 é um ano diferente e em que a saúde adquire uma importância acrescida. No sentido de manter e promover a sua correta avaliação e vigilância, as unidades de saúde nacionais estão a repor a atividade clínica com o cuidado e a segurança adequadas. Este momento deve constituir uma oportunidade para mudar comportamentos, aumentar o nível de bem-estar e deixar de fumar, ou influenciar quem fuma a optar por um estilo de vida saudável.

Pneumologista, Hospital CUF Infante Santo, Hospital CUF Descobertas, CUF Instituto Oncologia, Lisboa; Professor da NOVA Medical School, Lisboa.

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