Deixámos, malgrado nosso, de ser juancarlistas

Quando éramos antifranquistas, lá para o início dos anos de 1970, Juan Carlos parecia-nos uma imposição de Franco, a continuidade em dictablanda (ditadura branda) do regime contra o qual lutávamos. Embora houvesse uns quantos monárquicos na oposição, partidários de D. Juan, seu pai, a imensa maioria de nós era republicana por princípio.

Prontamente começou a longa transição, as amnistias assinadas pelo rei - recordemos que após cada lei de Amnistia, no dia seguinte, a ETA assassinava sistematicamente um militar, um polícia, um civil, seguindo a estratégia de quanto pior, melhor -, a legalização do PCE (Partido Comunista de Espanha) antes das primeiras eleições democráticas desde fevereiro de 1936, que se realizaram a 15 de junho de 1977.

Nós, das esquerdas, continuávamos a ser republicanos de alma e coração, mas aprovámos por enorme maioria a Constituição de 6 de dezembro de 1978. Foi na Catalunha que ela obteve mais votos favoráveis, e no País Basco também foi aprovada massivamente. O seu primeiro artigo estabelece que a forma política do Estado espanhol é a monarquia parlamentar.

Logo veio o golpe algo folclórico, mas não menos perigoso, de 23 de fevereiro de 1981. Naquela madrugada, o Rei falou e ordenou aos governadores militares que acatassem a Constituição. Muitos tinham dúvidas e diziam-lhe ao telefone que eram leais ao Rei, e ele disse-lhes que não, que lhes exigia que fossem leais à Constituição. Há quem sustente que havia uma conspiração orquestrada pelo próprio Juan Carlos que, ao ver-se destinada ao fracasso, o fez mudar de posição. Mas a verdade é que a democracia foi salva. Naquela memorável manifestação de Madrid, na praça Neptuno e em frente às Cortes, depois de o golpe ser derrotado, cidadãos de todas as tendências, centenas de milhares de pessoas gritaram viva o Rei e viva Espanha, e milhares delas levantaram ao mesmo tempo o punho fechado. Eu estava lá. Era insólito em Espanha. Nunca a esquerda havia dado vivas a um rei.

Não nos convertemos de republicanos em monárquicos por artes mágicas, não, mas tornámo-nos juancarlistas. O rei representava a unidade e uma garantia contra as ainda dubitativas Forças Armadas que, recordemos, eram sistematicamente vítimas dos atentados mortais da ETA. Depois, a entrada na NATO, promovida pelos socialistas, serviu para enquadrar definitivamente as nossas Forças Armadas no esquema democrático.

Em Espanha, ser progressista, de esquerda, significou sempre ser republicano, apesar do triste final, de confronto civil, das duas experiências republicanas de 1874 e de 1931. Mas com Juan Carlos, durante uns tempos, foi diferente. Até era simpático, pessoalmente agradável, nada convencido, afável ao estilo borbónico. Quando veio ao Estoril, em 1991, foi dar um abraço ao já idoso pescador português que lhe tinha ensinado, segundo se diz, a pescar e a nadar. Juan Carlos adorava, e adora, Portugal, a sua pátria de infância, diríamos. E isso também foi novo para os nossos dois países.

Depois houve os escândalos, os rumores, e embora o espanhol tolere melhor os de saias, os de dinheiro não se perdoam. Vieram à tona os disparates financeiros, as conivências de D. Juan Carlos com os oligarcas e déspotas árabes, a corrupção mais abjeta e vergonhosa, até aquela funesta e torpe caçada no Botswana. A tolerância, a permissividade, tinham terminado. Deixámos, malgrado nosso, de ser juancarlistas.

Qual é hoje o balanço que fazemos? Qual é o nosso sentimento? Primeiro, se formos imparciais, temos de reconhecer que este rei constituiu uma importante sustentação para a democracia em Espanha, não só no que respeita aos militares, como também às classes mais reacionárias. O rei Juan Carlos foi, durante um tempo, um escudo protetor da democracia face às veleidades do franquismo latente.

Segundo, muitos temos um sentimento de tristeza. A última coisa de que Espanha precisa é de outra crise institucional, depois da territorial e, agora, da económica e social. Outro rei espanhol morrerá no exílio, e por culpa exclusivamente sua. A instituição monárquica fica fragilizada, e isto é aproveitado, evidentemente, por todos os que gostam de bater em quem está no chão, atacando inclusivamente o rei atual e a instituição. Alguns, com essa hipocrisia e duplicidade moral que os caracteriza, como Bildu (herdeiros da ETA), ou os separatistas catalães, embora não acreditem em Espanha, entram no acosso e derrube da monarquia. Para quê, se para eles deve ser indiferente uma vez que odeiam Espanha? Outros, como este peculiar parceiro da coligação de governo que é o Podemos, que gosta de "comer a carne, mas não de roer os ossos", mostram uma negligência e uma deslealdade institucional surpreendentes e irritantes.

Só nos resta esperar que D. Filipe VI continue a ter o respeito de todos, tanto monárquicos como republicanos, e que haja entre os partidos políticos mais sentido de unidade e de respeito institucional. Em todo o caso, Espanha tem agora dois problemas essenciais, prioritários: o primeiro, sair da crise gerada pela pandemia e agudizada pela nossa exagerada dependência do turismo externo e pelas nossas debilidades estruturais, e, o segundo, a coesão territorial e a unidade real e aceite do país, especialmente na Catalunha. Não creio que a forma de Estado seja nem o mais urgente nem o mais necessário.

Escritor espanhol residente em Portugal

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