Poderá o Brexit ajudar-nos a compreender a Europa?

O Brexit é uma versão local da conjuntura pós-liberal da Europa contemporânea. O Brexit demonstrou a desilusão com a classe política dominante, a ascensão de valores alternativos e o caos causado por uma rutura com o passado sem a apresentação de alternativas claras. Essa rutura é dramática e as suas implicações são profundas. Portanto, não é exagero dizer que estamos a viver tempos revolucionários ou contrarrevolucionários. O Brexit pode parecer um caso especial, mas a Polónia, a Holanda, a Áustria, a Dinamarca, a França e a Itália têm as suas próprias experiências turbulentas, com a Alemanha a ser lentamente contagiada com o vírus iliberal dos seus vizinhos. Um Brexit mal gerido piorará a situação, não apenas em termos económicos, mas também em termos de democracia e cultura política.

Três lições universais

Primeira, e mais óbvia, o Brexit é um caso típico de rebelião dos eleitores contra os políticos de centro-direita e de centro-esquerda que estiveram no comando dos seus governos nas últimas três décadas ou mais. Os eleitores já não estão dispostos a aceitar partidos oligárquicos e decisões tomadas por órgãos não eleitos. Eles fartaram-se de políticas migratórias e externas ineficientes a criarem inimigos e a incubarem terroristas. Eles estão cansados ​​de estradas, hospitais e escolas que não funcionam. Cada nova eleição mostra a mesma tendência - a velha guarda está a ser castigada e os recém-chegados estão a ser recompensados. Este último grupo inclui não só os xenófobos, mas também os partidos Verdes ou várias entidades novas e não identificadas, como o Partido da Primavera na Polónia ou o Fórum para a Democracia na Holanda.

Segunda, o Brexit mostra que a contrarrevolução não é apenas uma mudança de guarda, é também uma mudança de mentalidade. A luta é sobre a noção do que é uma boa sociedade. Sob fogo estão os pilares normativos da ordem liberal: o pluralismo político e a tolerância cultural, os direitos das minorias e a sociedade multicultural, as fronteiras abertas e a soberania compartilhada. A União Europeia está sob fogo não só devido à sua rigidez e défice democrático, os críticos veem a UE como um veículo que dissemina valores "estrangeiros" que destroem as tradições nacionais e religiosas dos países. Eles argumentam que a solidariedade económica requer fortes laços culturais e que estes estão a ser diluídos pelo projeto de integração. Eles acreditam que qualquer redistribuição significativa e justa é inconcebível numa Europa com fronteiras abertas.

Terceira, o Brexit mostra que quebrar o "consenso" liberal leva ao caos, pelo menos a curto e médio prazos. Isso porque as soluções pragmáticas não são adequadas para resolver conflitos identitários e ideológicos. O liberalismo forneceu a "bíblia" abrangente sobre o que é bom ou mau numa sociedade, não apenas um manual para vencer eleições e ganhar dinheiro. Os iliberais desafiaram as verdades liberais, sugerindo uma nova interpretação do que é racional e normal. O Brexit não é apenas sobre regras comerciais, é sobre a definição do que é britânico e europeu. Os defensores radicais quer da permanência quer da saída acreditam genuinamente que estão certos, e nenhum lado quer ser condenado a passar à história política. Conflitos identitários e ideológicos fundamentais semelhantes estão a acontecer noutros países, sem soluções práticas à vista.

O histórico Conselho Europeu

Nesta quarta-feira, os políticos da Europa terão que tomar decisões com enormes implicações. Aqueles que se vão sentar no Conselho Europeu de 10 de abril devem evitar os erros cometidos pelos seus colegas britânicos. Primeiro, os membros do Conselho não devem tomar o povo como garantido. No Reino Unido, os defensores da permanência convocaram o referendo do Brexit porque achavam que a população estava do lado deles. Os partidários da saída estão a cometer o mesmo erro agora, assumindo que a população continuará a segui-los quando o Brexit começar a esvaziar-lhe os bolsos e a complicar a sua vida pessoal e profissional. As pessoas de ambos os lados do Canal da Mancha têm pouca confiança nos seus líderes e estão divididas nas grandes questões. Quando as coisas aquecerem, poucos políticos europeus poderão contar com um apoio popular esmagador. O radicalismo estará em voga.

Em segundo lugar, os membros do Conselho devem estar cientes da fragilidade da nossa democracia. No Reino Unido, o referendo do Brexit não resolveu as divisões políticas, e o esforço do parlamento para definir a "vontade do povo" terminou em desordem. As decisões tomadas no Conselho Europeu têm uma legitimidade democrática duvidosa e muitos membros do Conselho terão dificuldades em vender os custos do Brexit às suas empresas e aos seus cidadãos.

Em terceiro lugar, a noção de interesses nacionais e europeus é confusa neste momento. No Reino Unido, assistimos a interpretações totalmente opostas de interesse nacional, levando a um impasse. Do outro lado do Canal, os políticos tentam fundir interesses nacionais e europeus com respostas populares diversas. Os candidatos liberais e iliberais têm não só visões diferentes desses interesses, como também visões diferentes de si mesmos.

Em quarto lugar, embora o Brexit seja de facto uma manifestação de um conflito ideológico, a assinatura do acordo de retirada nos próximos dias resolverá pouco da luta em curso sobre a noção do que é uma boa sociedade. Aqueles que vão tomar a decisão a 10 de abril devem ter em mente que estamos apenas no começo do longo e doloroso processo de redesenhar a Europa em termos institucionais, económicos e culturais. A ideia conservadora ou a esperança de que o Brexit permitirá que a Europa mantenha as coisas como estão é uma ilusão perigosa.

Duas visões duvidosas

O problema com a visão liberal da Europa não está relacionado principalmente com os seus valores. Não há nada de errado com uma Europa de fronteiras abertas, tolerância cultural e liberdades individuais. No entanto, esses valores têm sido seguidos de forma opaca nos últimos anos. A abertura, a tolerância e a liberdade beneficiaram as pessoas com dinheiro e acesso informal, deixando grandes camadas da sociedade ignoradas e desfavorecidas. As intervenções militares ilegais e o tratamento desumano dos migrantes ridicularizaram os proclamados valores liberais. Os políticos associados a tais políticas nas últimas décadas dificilmente podem afirmar ser os guardiões da decência, da civilidade e da justiça.

O problema com a visão iliberal da Europa não está relacionado principalmente com a sua legitimidade. A crítica do reinado liberal é justa e os recém-chegados à política não são responsáveis ​​por pressões migratórias, famílias divididas ou instituições europeias disfuncionais. No entanto, as soluções oferecidas para lidar com a "confusão" herdada dos liberais não parecem adequadas. Perseguir ONGs que salvam vidas no Mediterrâneo não ajudará a lidar com a migração. Atacar os direitos de género e LGBT não fortalecerão as famílias da Europa. Sair da UE não nos tornará ricos, seguros e soberanos.

A única maneira de sobreviver ao tumulto em curso é ouvir e conversar uns com os outros. Isto deve ser praticado diariamente pelos cidadãos comuns. As autoridades europeias e os políticos nacionais não vão resolver as coisas por nós. A Europa está a bater à porta das nossas casas. Chegou a hora de nos levantarmos dos nossos sofás. Esta é provavelmente a lição mais importante do Brexit.

Jan Zielonka é autor de Counter-Revolution. Liberal Europe In Retreat, (Frankfurt: Campus, 2019)

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