Para além das ideologias

O meu posicionamento perante estas eleições é seguro e é mais do que um voto útil, é um sinal a favor da Democracia. Sendo eu um cidadão livre, sempre defendi mais as causas do que as ideologias, designadamente em termos autárquicos e presidenciais, daí ter tido convites de todos os espectros partidários, desde há 30 anos, uns que aceitei, outros que não.

Este posicionamento é uma convicção, sem preconceitos, de que, havendo à partida a presunção de um candidato pré-vencedor, do qual se espera que ajude a estancar a investida extremista de direita (e porque da outra direita pouco há a esperar), há outros a quem devemos estar atentos, e destes há quem faça uma candidatura pela positiva e se inclua no esperado refrescamento de rostos da política portuguesa, cujos sonhos e atuação devam ter substância e conteúdos e não pés de barro e, muito importante, desvaneçam dogmas antigos.

À escala mundial, vivemos uma guerra diferente de todas as anteriores, a que o governo português sempre reagiu reactivamente. Por isso, mais do que as ideologias, deveremos estabelecer um pacto de Cultura, que norteie o futuro, ou seja, fazer Política numa perspetiva de integrar a Cultura como a matriz do desenvolvimento. A Cultura é transversal às ideias, o que implica que os protagonistas sejam outros no futuro. Nas eleições portuguesas, há quem fale disto, como matriz do seu pensamento de candidatura e com origem numa área política em que a Cultura sempre foi basilar, ao contrário de uma direita sem raiz cultural e cada vez mais pobre nesse aspeto.

Não se trata de fazer acabar com as ideologias, nem sequer esquecer anteriores posicionamentos por parte das forças partidárias.

Lembro o conceito do "fim das ideologias", que foi projetado, desde 1960, por Daniel Bell (1919-2011), que aborda o esgotamento das ideias políticas, com base no que se descreveu dele próprio: socialista na economia, liberal na política e conservador na cultura. Sugeria ele que as ideologias mais antigas e humanistas, derivadas do século XIX e do início do século XX, se tinham esgotado, bem como, que a ideologia política se tornava irrelevante entre as pessoas "sensatas" e que a política do futuro seria impulsionada por ajustes graduais do sistema existente, com base nas ideias tecnológicas e, digo eu, numa juventude mais dinâmica, técnica e politicamente falando.

Mais de meio século depois, com um mundo virado do avesso e com Portugal diferente no regime político - de que dizem ser "moderno", mas, digo eu, com grandes problemas de injustiça social, sinais de corrupção em alta escala no "centrãopolítico-partidário" e enfraquecimento intelectual da classe política -, o lugar das ideologias volta a ser um pensamento passível de reflexão, face ao paradigma mais ligado às causas imediatas.

A "secundarização" das ideologias não deve, porém, dar origem à não-ideologia, posicionamento que se afasta do projetado por Bell, porque, no limite, há sempre uma raiz e uma convicção subjacentes à atuação política, com mais ou menos presença na imaginação do futuro e com mais ou menos aposta na resolução pragmática dos problemas.

Em Portugal, se, entretanto, o país não entrar em colapso, um novo ciclo que se abra deverá configurar o início de um tempo de transversalidade, de convergência, de imaginação criativa, a que as ideologias (mais ou menos ainda presentes) não se devam sobrepor. Os diferentes quadrantes nascidos do socialismo, da social-democracia e do liberalismo deveriam posicionar-se na "idade da convergência", em função do pragmatismo, para concretizar soluções de salvação nacional (através de uma ideia para Portugal no futuro), para a intervenção urgente em sectores degradados da nossa sociedade e para a intervenção política (designadamente autárquica) perto das pessoas, com soluções verdadeiramente qualificadas e duradouras.

À esquerda, ao centro e à direita, todos serão necessários, num registo democrático, para a conquista da convergência e não para a conquista das ditaduras - sem batalhas de lana-caprina e jogos de bastidores, que façam empobrecer, ainda mais, o País e os Portugueses. Para tal, importa dar força às novas gerações de políticos - àqueles que valham a aposta -, longe de quaisquer tipos de ditadura, à esquerda ou à direita, e perto do diálogo construtivo e da modernidade.

Professor Universitário

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