O vírus que também mata ideias feitas

Entre os impactos da pandemia causada pelo novo coronavírus está um que nos deixa motivos adicionais e surpreendentes de reflexão - aquele que tem a ver com os efeitos já visíveis no ambiente e no planeta. De facto, as informações que nos têm chegado nos últimos dias impressionam. As emissões de dióxido de carbono na China, a origem do vírus, devem cair em quase 30 por cento, de acordo com as mais recentes previsões.

Mesmo que se trate de uma redução temporária, e como explicou o "The New York Times", com apenas três semanas desta diminuição atingiu-se o equivalente àquilo que uma grande metrópole como Nova Iorque produz num ano inteiro - 150 milhões de toneladas de dióxido de carbono.

Isto só na China, num único marcador (o dióxido de carbono), num período curto. Imagine-se o panorama a nível global. O COVID-19 é uma força sinistra e todos temos de nos juntar e de ter, individualmente e enquanto sociedade, o melhor comportamento cívico e solidário para a combater, sobre isso não há quaisquer dúvidas. Mas também nos permite entrever que há coisas que eram impossíveis e que afinal são possíveis.

Ao mesmo tempo, a pandemia revela que não estamos preparados para lidar com futuros surtos de doenças que podem aparecer em resultado das mudanças climáticas. Com efeito, as alterações que os cientistas - um consenso alargado, quase unânime, de opiniões científicas, diga-se - preveem para o clima do planeta podem provocar o aumento do número de doenças transmitidas pelos animais aos seres humanos, devido à diminuição dos habitats e à redução da biodiversidade.

Mais: o derretimento dos gelos polares e da permafrost ameaça libertar nos ecossistemas bactérias e vírus há muito inativos.

Por outro lado, o espetáculo terrível da morte de milhares de pessoas à escala global, e a perspetiva de poderem ser muitas mais, cada vez mais próximo de cada um de nós, deverá servir para nos lembrar como a vida é preciosa e frágil.

Até agora, perante as notícias de que estamos a destruir o mesmíssimo meio ambiente que nos acolhe, e assim a nós próprios também, escolhemos sempre continuar a nossa existência diária como habitualmente, como se nada fosse, como se fôssemos, nós e a nossa casa viva que é a Terra, intocáveis, imortais, eternos. Comportamo-nos, como espécie, como se estivéssemos convencidos de que no fim do dia estará sempre tudo bem, de alguma maneira e sem sabermos bem como.

Isto é: só quando confrontados com a realidade nua e crua da dor e da morte em grande, inimaginável escala é que nos obrigamos, ainda que contra vontade, a adotar uma visão mais ampla e de longo prazo. E é exatamente isso que é preciso para conseguirmos fazer a mudança que exigem as alterações climáticas.

Da nossa parte, e pelo meio destes dias sombrios, continuamos a preparar e a acreditar no futuro. No final da passada semana, lançámos publicamente a nossa estratégia para a Sustentabilidade, genericamente designada: Approved by tomorrow. Voltarei a este tema brevemente, para explicar como vamos transformar a nossa organização, e contribuir para um consumo mais sustentável, que potencie o realinhamento de marcas e produtos.

É altura de - finalmente! - despertarmos e entrarmos em ação de uma vez por todas. Porque o COVID-19 está também a matar ideias feitas em todo o mundo.

Responsável pelas Relações Institucionais da DECO PROTESTE

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