O que realmente importa

Estamos a viver um tempo em que quase todos os portugueses se equacionam sobre o futuro. Uns porque acreditam que o novo governo rompeu com o statu quo e vai revolucionar tudo o que esse mesmo statu quo defendia e trazer uma mudança muito positiva à vida dos portugueses; outros porque acreditam que este governo, ao romper com o statu quo, vai pôr em causa toda a recuperação que se vinha conseguindo e vai ceder em questões que serão prejudiciais ao desenvolvimento da economia portuguesa por muitos anos.

Outros, como eu, também questionam sobre esse futuro, não tanto porque já prevemos aquilo que vai acontecer, mas muito mais porque não sabemos aquilo que vai acontecer.

Confesso que, ao contrário de muitos dos meus compatriotas, eu gosto da mudança e, na maioria dos casos, sabendo que a mudança tem sempre dor, a verdade é que os seus resultados são aquilo que faz crescer e desenvolver a sociedade.

E a sociedade, que sem dúvida tem uma dependência muito grande da economia, não é exclusivamente economia. Ora o debate a que assistimos, e que mais está a motivar maior clivagem, está, principalmente, focado na questão económica.

Parece-me que muito do debate que temos de fazer, a partir de agora, deve estar mais ligado ao tipo de sociedade e de país que queremos criar do que sobre a forma como se vai pagar um futuro que ainda não desenhámos.

A última vez que se discutiu em termos públicos a sociedade portuguesa, com opiniões muito antagónicas, mas com o mérito de se dar a conhecer a opinião de todos os portugueses que se quiseram manifestar, foi há já muitos anos. Esse modelo parece ultrapassado.

Aqui chegado, tenho para mim que nem os partidos estão identificados com as ambições da população e, por isso, não motivam ninguém a participar na política, nem os sindicatos estão identificados com os trabalhadores e por isso perdem constantemente a sua massa de associados, nem as associações empresariais representam a maioria das empresas que, também por isso, não se reveem nelas e não estão disponíveis para as sustentar no seu trabalho.

Na verdade, assistimos durante a campanha eleitoral a uma discussão sobre o salário mínimo que define exatamente aquilo que aqui estou a tratar: enquanto as centrais sindicais exigem um aumento do salário mínimo, as associações empresariais manifestam o seu desagrado por esse aumento e os políticos se dividem a apoiar um ou o outro lado da questão, o que realmente é fundamental fazer não tem nada que ver com o aumento do salário mínimo e tem tudo que ver com o aumento do rendimento dos trabalhadores.

Ora isto nunca se resolverá estabelecendo um novo teto de salário mínimo em que os menos favorecidos passam de 400 euros para passar a ganhar 500 euros por mês, situação que muito pouco ou nada contribuirá para devolver a dignidade a essa pessoa. O que se defende é uma distribuição dos resultados da empresa, baseada no aumento da produtividade, e que permita a esse mesmo trabalhador ganhar 1000 ou 1100 euros mensais para passar a poder desfrutar de uma vida digna de uma sociedade que se diz ter uma base cristã.

Este, acredito eu, é o verdadeiro drama da sociedade portuguesa e aquilo que mais contribui para o desvio de caminho que tem vindo a fazer e que nos tem colocado, por mais de uma vez, em condições de profunda crise financeira que esperamos todos não voltar vir a sofrer.

Só depois de estabelecermos claramente o caminho que queremos prosseguir é que poderemos definir com consciência qual é o modelo económico que devemos estruturar, pelo que decidir hoje sobre esse modelo será sempre um erro que teremos de corrigir mais tarde.

Em qualquer caso, e até que decorra todo este processo, que infelizmente não me parece ter sequer começado a despontar na cabeça dos nossos dirigentes políticos, empresariais, sindicais, ou comentadores, a realidade é que para assegurar que não voltamos a sofrer os rigores de uma recuperação económica, só as empresas podem, no curto, médio e longo prazo garantir um desenvolvimento económico suficiente para que se aumente a riqueza e não nos deixemos voltar a ser pobres.

Foram as empresas que, durante os últimos quatro anos, realizaram o extraordinário trabalho de reequilibrar a economia nacional e serão elas as únicas que poderão ajudar qualquer governo a garantir que as suas políticas possam ser implementadas e assegurar uma continuidade desse crescimento essencial ao nosso país.

Pres. Conf. Int. dos Empresários Portugueses e da Câmara de Comércio e Indústria

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