O desaparecimento (equivalente) de Setúbal

O INE deu a conhecer os mais recentes dados demográficos do país. Destaca-se o saldo natural negativo de 23 500 pessoas em 2016 em relação a 2015, considerando apenas a diferença entre mortes e nascimentos. Temos de nos habituar à dimensão da mortalidade no ano passado. Os dados apontam para uma mortalidade cada vez mais frequente depois dos 80, bom sinal (57,9% do total). Só 15% estão abaixo dos 65 anos, valor que tem melhorado desde 2010. Vivemos mais anos em 2016, muito devido aos nossos serviços de saúde.

O aumento da idade traduz-se num desafio quanto à qualidade dos anos vividos com maior idade. Temos um longo caminho a percorrer para melhorar a qualidade de vida dos portugueses com mais de 65. Claro que iremos melhorar, visto que as gerações que hoje chegam a essa idade tiveram oportunidades bem melhores do que as anteriores (quem perfaz agora 65 tinha 21 em 1974, o que lhe permitiu o usufruto de direitos, melhoria de condições de vida e tecnologias cujo acesso era inexistente ou uma miragem). A preparação da idade mais adulta inicia-se bem antes dos 65/70, tendo-se particular atenção em relação às gerações futuras mas também a quem já completou os 45. O trabalho, o local de trabalho ou a intervenção em pessoa desempregada são áreas a prestar atenção e investir para melhor saúde.

A mortalidade infantil subiu, em relação a 2015. Um valor pequeno, mais 25 óbitos em bebés de menos de 1 ano, que se traduz numa subida da taxa de mortalidade infantil de 2,9 para 3,2 por mil nascimentos - na prática, em cada 3300 bebés nascidos em Portugal, em 2016, um não festejou um ano em relação a 2015. Quando os números são pequenos as taxas podem ter variações relativamente grandes que devem ser lidas com atenção. Note-se que há uma relação entre o baixo peso ao nascer, maior risco de mortalidade durante os primeiros meses de nascimento e idade da mãe, nomeadamente em mães com menos de 20 ou mais de 35. Ora, se o grupo de mães adolescentes tem vindo a reduzir significativamente (menos 3,8% em relação a 2015 e de 33% nos últimos cinco anos), o mesmo não acontece com mães com mais de 35 (+31,4% do que em 2015). Aliás, nota-se um aumento de 80 bebés nascidos de mães com idade igual ou superior a 45 (+37% do que em 2015). Estes dados poderão justificar em parte a variação da mortalidade infantil em 2016. Serviços de saúde, sociais e outros devem ter maior atenção a este grupo etário.

Não deixa de impressionar o sucessivo saldo natural negativo da população. Se fizermos o somatório da diferença de população que morre e nasce de 2012 a 2016 verifica-se um défice de cerca de 113 mil. A população da linda cidade de Setúbal tem uma população equivalente... em termos mais ou menos práticos, nos últimos cinco anos uma população residente (com o saldo migratório seria bem mais grave!) equivalente a Setúbal foi varrida! O desafio é de facto grande e temos de saber responder e adaptar serviços, em particular os de saúde, a esta nova realidade. O desafio demográfico é o determinante no desenvolvimento de políticas.

Diretor Executivo do Plano Nacional de Saúde da DGS

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