Nuno Teotónio Pereira - a habitação para o maior número

Conheci Nuno Teotónio Pereira nos finais dos anos sessenta, andava eu na Escola de Belas-Artes de Lisboa. A sua figura exercia sobre nós um duplo fascínio: o da obra, pelo rigor e coerência, sem concessões nem subserviências; e o do cidadão empenhado e inconformado, sempre pronto a levantar a voz contra a prepotência e atento à degradação das condições de habitação.

Passei pelo seu ateliê, levada por Nuno Portas, nos inícios de 70. As suas militâncias davam direito a prisão. E foi em Caxias, no dia 26 de abril de 1974, que o fui reencontrar, quando se abriram as portas da cadeia onde se encontrava mais uma vez.

Anos mais tarde, em 1988, quando a Assembleia da República aprovou por unanimidade a transformação do antigo Sindicato dos Arquitetos em associação de direito público, assisti como deputada a um gesto raro naquela casa. Espontaneamente todas as bancadas se levantaram para aplaudir de pé um homem que, na tribuna do público, acompanhava o debate: era o Nuno a assistir, comovido e discreto, a uma das causas da sua vida - o reconhecimento da importância social e cultural da arquitetura.

A sua entrada na profissão coincidiu com uma aparente descompressão do regime salazarista, na sequência da vitória dos aliados. O 1.º Congresso Nacional dos Arquitetos, em 1948, acabou no entanto por ser um tiro na culatra do regime. Influenciados pela Carta de Atenas, de cuja primeira edição portuguesa, de 1944, Nuno foi um dos tradutores, os jovens arquitetos protestavam contra a imposição do "estilo nacional". O que tinha começado como uma simples questão formal era afinal a questão de fundo do regime - a liberdade. Liberdade para projetar, liberdade para defender uma arquitetura centrada nas necessidades elementares do homem, liberdade para lutar pela "habitação para o maior número", outro pilar essencial da vida e obra de Nuno Teotónio. Meses antes de nos morrer, continuava a dizer que o principal desafio que se coloca aos arquitetos é a habitação.

Foi na arquitetura e na cidade que procurou dar corpo aos seus ideais de justiça e fraternidade. Detestava a "coligação tenebrosa" de preconceitos, anacronismos e avidez de lucro. Sabia que a arquitetura por si só não resolve tudo, mas pode trazer, como escreveu um dia, "aterradoras somas de infelicidade e sofrimento".

Muitas das ideias pioneiras que viriam a tomar corpo no programa SAAL, em 1974, nasceram no seu ateliê da Rua da Alegria, verdadeira escola alternativa ao ensino tradicionalista da ESBAL. A luta urbana surgia cada vez mais como caminho para conseguir o fim da ditadura mas, ao mesmo tempo, como resposta concreta às dificuldades das populações pobres. A ideia de criar equipas de apoio local para intervir diretamente nos bairros degradados, envolvendo profissionais, moradores e estudantes, estava lançada, anos antes do 25 de Abril.

Mas a questão da habitação para o maior número continuou a preocupá-lo depois do fim da ditadura. Em 1979 inicia uma pesquisa sobre os pátios e vilas de Lisboa, defendendo a sua salvaguarda. A consulta dos muitos textos que foi escrevendo é aliás imprescindível para a história das políticas sociais do século XX em Portugal.

Atento às transformações do território, escreve no Expresso, em 1979, que "falta uma política de esquerda" nesta matéria. É com veemência que reclama severas políticas fiscais contra os fogos devolutos nas cidades, prioridade à reabilitação urbana, atenção aos transportes públicos e aos peões. Defende a participação dos cidadãos na feitura da cidade, contra os interesses especulativos, os preconceitos e a estreiteza de vistas. Já doente e muito debilitado, continua a acompanhar com solicitude as políticas da cidade e a angustiar-se com a falta de casas para as famílias jovens.

Pioneiro, desprendido até ao limite, modestíssimo (os méritos que lhe apontavam eram sempre dos outros, nunca de si próprio), corajoso e fraterno, assim era o Nuno. Perdê-lo, para muitos de nós, foi como perder um pai - alguém que nos fez quem somos e nos ensinou que "a arquitetura se faz de dentro para fora, como um ser humano", como disse numa das suas últimas entrevistas.

Para além da sua obra tantas vezes premiada, Nuno Teotónio foi uma pessoa rara. A sua riqueza interior transcende a arquitetura que nos deixou para constituir um legado cívico e moral que nos cabe honrar e fazer perdurar.

Arquiteta

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