José Afonso: a falta que ele ainda nos faz

Três décadas passadas sobre a sua morte, José Afonso continua a ser um nome de referência e sempre renovado afecto para quem acredita que a história da democracia e da cidadania também se pode contar através de canções. A prova disso é o facto de Grândola, Vila Morena ter sido a senha do movimento libertador de 25 de Abril de 1974 e de ter regressado às ruas, às praças e às salas de espectáculos no quadro do movimento de contestação que denunciou há poucos anos os danos irreparáveis causados por uma política de austeridade que agravou o desemprego, o processo de saída de Portugal de dezenas de milhares de jovens licenciados e a perda da esperança e da vontade de sonhar.

Mais uma vez, José Afonso foi a voz do sonho, da revolta e da esperança, como tinha sido quando compôs, gravou e cantou Os Vampiros e muitas outras canções como A Morte Saiu à Rua, O Que Faz Falta, Traz Outro Amigo também ou Venham mais Cinco. Essas foram as luminosas sínteses musicais e poéticas que nos permitiram dizer em coro a inquietação e a mágoa causadas pela arbitrariedade e pela violência da ditadura.

Assim ganharam o estatuto que muito justamente lhes confere o poder intemporal de dizer o que nos vai no espírito e nos desassossega a vida.

Porém, 30 anos após a morte do cantor, a complexa situação da sua obra discográfica, nas mãos de editores que não a reeditam, não a valorizam e não a pagam aos herdeiros torna todo este processo nebuloso e de muito difícil resolução.

O papel do poder judicial é essencial, do mesmo modo que poderá ser determinante a vontade do Ministério da Cultura de conferir estatuto de património cultural ao conjunto da obra de Zeca Afonso, por ter sido o autor e intérprete de canções únicas na nossa história e por ter criado a canção-senha do 25 de Abril que, com esta acertada e merecida escolha, reconheceu publicamente o papel dos cantores políticos no combate pelo derrube da ditadura e pela conquista e construção da democracia.
Mais do que o empenho financeiro dos poderes públicos, o que se espera e deseja é que saibam usar a sua capacidade institucional para agilizar um processo que, arrastando-se, prejudica a nossa vida, cultural e cívica, e a sempre inadiável defesa dos direitos de autor. A Sociedade Portuguesa de Autores já manifestou a sua disponibilidade e empenho no sentido de apoiar esse processo, tanto mais que José Afonso, seu associado desde Novembro de 1960 e cooperador desde 16 de Fevereiro, é sempre um símbolo de excelência da nossa comunidade autoral com toda a diversidade criativa e cronológica que a caracteriza. Por esse motivo, a SPA promove um espectáculo evocativo da vida e da obra de José Afonso, com coordenação de Carlos Alberto Moniz, no dia 21 de Março, no Teatro da Trindade, e apoiou a edição discográfica da canção República, gravada por José Afonso e Francisco Fanhais em Roma, em 1975.

Temos com José Afonso o dever cívico de quem sabe que ele cantou de forma única e inimitável o desejo de mudança a que o 25 de Abril deu voz e inabalável força popular. Isso está presente nos testemunhos que recolhi para o livro Zeca Afonso, o Que Faz Falta (Guerra e Paz), agora editado e que celebra o homem que foi sempre um amigo solidário em cada esquina das nossas vidas caminhantes.
Quando estreámos em Santiago de Compostela, em 1972, Grândola, Vila Morena, ainda ignorávamos que capítulo da história essa canção ia permitir escrever. O que depois vivemos e sentimos leva-nos sempre a lembrar a falta que o Zeca nos faz.

As tecnologias, os gostos, os ritmos quotidianos e os ciclos da moda fazem que a obra de José Afonso continue a acompanhar-nos, embora não esteja tão acessível e presente como desejaríamos. Também a nossa vontade deverá prevalecer nesse domínio, demonstrando a quem decide que um esforço competente de celebração e reencontro só enobrece a nossa memória e a nossa vida em democracia.

Escritor, jornalista e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores

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