Voto austeritário

O PSD perdeu as eleições. Não vale a pena dourar a pílula: um partido de vocação de governo, com a tradição de ser o maior partido a nível autárquico e com a responsabilidade social e política que tem no país não transforma derrotas em vitórias. Não enterra a cabeça na areia. Não procura bodes expiatórios. Pelo contrário, um partido como o PSD trabalha sobre a crueza dos resultados para se reinventar no futuro. Os portugueses, que olham para o PSD como alternativa, procuram legitimamente respostas a várias questões. Não fugimos delas.

Sabemos exatamente quais foram as razões que nos conduziram a um resultado que, manifestamente, ficou aquém das expectativas.

Em primeiro lugar importa perceber o que falhou. Contas feitas o PSD perdeu oito câmaras. Recuou para um mínimo de 98. Porquê? Mais do que não conquistar a autarquia A ou B, é hoje claro que o PSD tem uma fuga eleitoral essencialmente entre os votantes com mais de 55 anos e nos centros urbanos com mais peso demográfico da função pública. Na origem deste afastamento, um grupo que, recorde-se, tem constituído a espinha dorsal do eleitorado social-democrata, estão ainda os anos exigentes da nossa governação.

O PSD foi governo em circunstâncias de excecional emergência. Herdámos um caderno de encargos duro, negociado pelos socialistas, e que impôs sacrifícios particularmente pesados aos pensionistas e funcionários públicos. Tirámos o país da bancarrota e lançámos as sementes do desenvolvimento. Se hoje estamos melhor, a esses anos o devemos. Só que este eleitorado ainda não perdoou ao PSD. Está a ajustar contas connosco, a devolver-nos a austeridade por intermédio dos votos. Paradoxalmente, o PSD que tratou da cura do país continua a ser erradamente penalizado pela doença. Se não soubemos explicar isto às pessoas, que governamos para as pessoas e não contra elas, a culpa é nossa. Mas a história sobre esse tempo, e o que se seguiu, ainda está para ser escrita. As eleições, essas, é que não se reescrevem.

Em segundo lugar, as responsabilidades. Como sempre o disse, as autárquicas tratam de 308 eleições locais. Não prestaremos um bom serviço à democracia se misturarmos sistematicamente as leituras dos atos eleitorais. Contudo, nada disto suaviza responsabilidades. Como coordenador nacional autárquico, dou a cara por eles. Mas como o processo de escolha de candidatos no meu partido é altamente descentralizado, essa responsabilidade é também partilhada com as estruturas distritais, concelhias e locais que lideraram as candidaturas. Falhámos coletivamente em muitas delas.

Pedro Passos Coelho, a quem todos apontam baterias, não esteve em nenhum boletim de voto. As últimas eleições em que foi candidato tiveram lugar em 2015. Foram as legislativas. E delas saiu vencedor.

Em terceiro e último lugar, o futuro. Mesmo num mau momento, o PSD é um partido nacional, grande e forte. É poder em 98 câmaras. Cruzando a lista dos 20 maiores municípios com as 15 capitais de distrito (que ficam fora da lista anterior), o PSD sobe de 13 para 16 presidentes de câmara. E neste conjunto de 35 grandes municípios aumenta o seu resultado em 12 027 votos. Olhando para o total do país, teve mais votos agora do que noutras eleições de má memória, como as legislativas de 2009. O PSD não acabou em 2009, nem em 2013, tal como o PS não tinha acabado em 2001. O PSD também não irá acabar depois de 1 de outubro. Se a história política do país já provou alguma coisa, é que os relatos sobre a morte do PSD são sempre claramente exagerados. O PSD tem presente no poder local. E terá sempre futuro no governo da nação. À altura das exigências de Portugal e dos portugueses.

*Coordenador autárquico do PSD

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