Touradas: Todas as diferenças devem ser respeitadas

Há em Portugal uma perigosa deriva proibicionista que quer proibir tradições e marcas de identidade e liberalizar costumes e novas realidades. É uma espécie de arrogância pseudointelectual de minorias que ambicionam construir a sua realidade em cima do fim das tradições, das marcas de identidade de territórios e de um determinado pulsar do Mundo Rural, que faz com, por exemplo, o toiro de lide só exista como espécie animal para a sua participação nas touradas.

Sim, as touradas e as outras manifestações tauromáquicas fazem parte da identidade de muitas comunidades no país, são fator de valorização do Mundo Rural e importantes alavancas das economias locais.

Sim, nem todos gostam, mas os que gostam também não têm nenhuma intenção de querer proibir muitas das conquistas dos proponentes destas tentações proibicionistas, mesmo que muitas vezes sobreponham o vegetal e o animal ao mínimo de defesa dos direitos humanos. Estes são sempre dados como adquiridos, quando há muitos seres humanos que não têm ainda acesso a mais do que o básico ou a determinados padrões de qualidade de vida.

É por isso deslocada e arrogante, a intenção de querer impor uma visão de sociedade, de gostos e de crenças pessoais como letra de lei, sem ter em conta as realidades locais e as dinâmicas existentes nos territórios, expressões populares e tradicionais que têm sido importantes alavancas de desenvolvimento local.

Uma sociedade em que a diversidade de opiniões não é respeitada, é uma sociedade que não cumpre todos os requisitos de democraticidade. A liberdade de expressão não é um valor de geometria variável. Invocada para sustentar a conquista de direitos de acordo com determinados padrões, impedida quando estão em causa as expressões de tradições, de manifestações populares e momentos de afirmação do nosso mundo Rural.

Há demasiado tempo que os territórios rurais não têm a atenção que deviam dos poderes, dos influenciadores e da comunicação social. Não se tem decidido o que importa para inverter os fenómenos negativos que têm afetado o Mundo Rural e o Interior, mas há sempre quem, do alto das suas alegadas higienizadas, civilizadas e progressistas convicções, queira impor ainda mais dificuldades a quem lá vive e trabalha.

Como é deslocada e arrogante, a intenção de querer eliminar o financiamento público às touradas, limitar a transmissão de touradas na televisão ou abolir totalmente as touradas no país. Se o critério de preconceito e arrogância que está na base destas propostas fosse aplicado a muitas das iniciativas parlamentares dos proponentes, a maioria morria à nascença, mesmo que sob a capa de alegados avanços civilizacionais. Não existem diferenças de primeira e diferenças de segunda, em função dos proponentes ou do que está em causa.

Somos a favor das touradas, porque são parte das tradições e do pulsar do nosso Mundo Rural.

Somos a favor das touradas e de outras expressões tauromáquicas que são a expressão de um sentir popular que deve ser respeitado.

Somos a favor das touradas, porque são uma importante atividade económica e de dinamização de várias economias locais, tendo as transmissões televisivas, apesar dos horários, mais audiências do que boa parte da programação dos canais. E ninguém está a defender que algumas expressões culturais ou notícias com dimensão violenta não sejam transmitidas.

Somos a favor das touradas porque, fazem parte do património de muitas comunidades e territórios e são importantes para a nossa identidade enquanto povo.

Deputado do PS

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.