Será Lutero o responsável pela austeridade?

A questão que levou Martinho Lutero a afixar as suas 95 teses na porta da igreja de Wittenberg foi muito concreta: a venda das chamadas cartas de indulgência com as quais os crentes poderiam "comprar", para os seus familiares defuntos, uma redução do sofrimento no purgatório. Tratava-se de uma prática muito popular, cuja verdadeira finalidade se destinava a financiar a construção da Basílica de São Pedro, em Roma. Parece hoje quase incompreensível como uma tal questão poderia levar a tantos protestos, conflitos e até à própria divisão da Igreja. Mas a maneira como Lutero formulou logo a primeira das suas teses não deixou dúvida de que o problema era longe de ser só uma questão de dinheiro. O tema que Lutero introduz é a penitência, a maneira correta de alcançar o perdão de Deus. E a resposta que o monge agostiniano dá é simples: nunca pode o perdão ser conquistado através da mediação de ninguém. Só o próprio crente e só através de uma vida dedicada à penitência poderia ganhar o perdão do Senhor. A Igreja, e com ela o Papa, nem teriam o poder nem os meios para perdoar os pecados. O verdadeiro tesouro da fé seria exclusivamente a Sagrada Escritura e dela, e só dela, pode vir a salvação.

Se este ainda parece um argumento muito abstrato e teológico, as consequências destas afirmações não poderiam ser mais radicais. De repente, toda a questão da graça divina deixa de estar consagrada à Igreja e passa para cada um dos crentes e para a sua relação com Deus. A reforma introduziu, por isso, o que se chama "o sacerdócio de todos", isto é, a igualdade de proximidade e de acesso a Deus a todos os crentes. Se na Igreja Católica os consagrados partilham uma maior proximidade com Deus (e por isso se chamam consagrados), os protestantes desconhecem um tal privilégio. Todos partilham a mesma necessidade de procurar e viver a graça de Deus sem intermediário e sem garantias - sejam garantias de sacramentos ou de cartas de indulgência. Só existe um "guia" neste caminho: a palavra de Deus presente no texto bíblico. É aí, e só aí, que o crente pode encontrar orientação. Percebe-se, por isso, que a tradução da Bíblia que Lutero realizou é muito mais do que um mero exercício linguístico. Trata-se de um instrumento indispensável para poder viver uma verdadeira penitência e uma verdadeira participação na salvação divina.

Esta viragem para o crente e a sua responsabilidade pessoal com Deus é o ponto central de todo o argumento luterano. Esta viragem tem efeitos radicais, tanto no lançamento de uma liberdade e de uma dispensa da autoridade eclesiástica como numa chamada à responsabilidade individual. Nenhum sacerdote, nenhum sacramento, nenhum santo pode aliviar a necessidade do crente em alcançar a graça divina. Tudo fica a cargo de cada um individualmente.

Este é, provavelmente, o efeito mais duradouro e mais persistente que Lutero trouxe para a Alemanha e para a Europa: a valorização do indivíduo, dos seus deveres permanentes e da necessidade de austeramente cumprir estes deveres. Toda a vida tem de ser penitência, dizia Lutero já na primeira das suas 95 teses. Sem luxos nem desvios. E daí que os luteranos tenham (e os chamados protestantes em geral) desenvolvido uma austeridade comportamental e uma ética muito particular, que trazem consigo um novo conceito de trabalho e de profissão e uma racionalização "economicamente relevante" (como disse o teólogo Friedrich Wilhelm Graf), que o sociólogo Max Weber descreveu sob o título A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Se cada um tem de ganhar a graça divina através dos seus atos e das suas obras, e se não há nenhuma garantia neste caminho além da própria fé nela, a rígida responsabilidade de cada indivíduo cresce com as potencialidades da sua realização. A austeridade é a tradução desta atitude num comportamento contínuo, visível ainda hoje (como escreve Tobias Becker no Spiegel) nas políticas de poupança, no estilo austero tanto das igrejas protestantes como das lojas dos discounters alemães, que só agora têm sucesso em Portugal.

Naturalmente, não há uma linha exclusiva entre protestantismo, capitalismo e austeridade e ainda menos uma relação causa e efeito. Mas o luteranismo proporcionou na Alemanha um elenco de experiências que acabaram por marcar a sua história tanto como o seu presente. Os conflitos religiosos que se iniciaram com Lutero e que culminaram na Guerra dos 30 Anos reforçaram a noção da conflitualidade e da diversidade que foram primeiro a razão de um atraso económico e social até ao século XVIII e depois se transformaram numa dinâmica do desenvolvimento muito própria. A filosofia alemã que cultiva mais "o interior" e a racionalidade da pessoa, comparada com a dimensão social e política noutros países, pode ser outra consequência das teses de Lutero. Certamente, a história e a filosofia não são exclusivamente um resultado de uma nova orientação religiosa. E o que seria a melhor religião sem os meios técnicos para a sua divulgação - como Lutero os encontrou na recém-inventada imprensa? Antes deve ser a própria opção luterana uma aliada de tendências e forças já existentes: o regionalismo alemão que se traduz em federalismo e numa ausência de qualquer centralismo autoritário, uma economia cada vez mais burguesa com o peso do negócio a vencer os benefícios da herança: isto tudo corresponde a uma religião que valoriza o esforço e o empenho de cada um.

Seria injusto dizer que católicos não seriam capazes da mesma experiência. Os muitos católicos alemães com as suas atitudes "protestantes" são prova viva disto. Afinal, a questão deixou de ser religiosa. Mas não deixou de chamar e responsabilizar o indivíduo. Historicamente são os protestantes os primeiros que escolheram este caminho: por terem mais razões para insistir e exigir do indivíduo o seu melhor em qualquer momento - antes de se tornar num traço geral da sociedade moderna. Perdoar pecados ou dívidas - só Deus o pode fazer. A cada um cabe responsabilizar-se pelos atos e gastos que efetuou. É isso, afinal, a lógica religiosa atrás da austeridade. Só que a austeridade é tudo menos do que uma questão de fé.

Pastora luterana; dirigente Assoc. São Bartolomeu dos Alemães; Professor de estudos culturais na Univ. Católica

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