Finlândia 100 - passado, presente e futuro

A Finlândia celebra amanhã o centenário da sua independência. No ano passado também celebrámos o 110.º aniversário sobre as primeiras eleições em que todos os cidadãos, homens e mulheres, receberam o direito ao sufrágio universal, o princípio de igualdade e o direito de candidatura às eleições.

Independência e igualdade são as duas pedras basilares da Finlândia moderna. Porém, durante as primeiras décadas da independência a Finlândia passou por tempos difíceis, incluindo uma guerra civil que terminou na primavera de 1918. Os finlandeses foram, no entanto, determinados em transformar a guerra civil num ponto de viragem para a unificação do país e para a eventual consolidação democrática.

Nos anos trinta do século passado, a Finlândia, apesar de ser ainda um país pobre, começou a consolidar estes ganhos através de iniciativas políticas de base que resultaram no moderno sistema de Estado social. Este processo interno de consolidação foi previdente, dado que preparou mentalmente os finlandeses para virem em defesa do seu país.

Esta atitude foi posta à prova de forma mais severa na Segunda Guerra Mundial, durante a qual a Finlândia lutou em duas guerras contra a União Soviética. A Finlândia defendeu-se de forma heroica, mas o preço foi alto: perdemos território e 10 % da população teve de ser realojada. Mas o mais importante - a nossa independência - foi preservado.

Depois da guerra a Finlândia foi condenada a pagar reparações da guerra à União Soviética. Os pagamentos foram feitos em géneros, nomeadamente produtos industriais, que contribuíram, na realidade, de forma bastante significativa para o desenvolvimento das indústrias finlandesas. A Finlândia foi também o único país do mundo a pagar a totalidade das reparações de guerra. No período pós-guerra, as bases da sociedade orientada para o consenso, a essência da política interna e o tecido social ganharam corpo. A nossa unificação demonstrou que mesmo os profundos conflitos internos podem ser resolvidos dentro das instituições e processos democráticos. Este crescimento como nação foi extremamente importante durante os anos da guerra; enviou uma mensagem forte aos finlandeses de que conseguimos manter-nos unidos. Mais tarde, abriram-se as portas para a integração europeia com valores próximos do nosso coração. Para muitos, terá sido a conclusão de um ciclo para a Finlândia: somos parte integrante da Europa; de um continente que sempre fizemos parte e onde nos sentimos bem.

A Finlândia reinventou-se por diversas vezes apenas num curto século - e ainda continuamos a fazê-lo. A nossa identidade nacional e herança nórdica impulsionou-nos para o topo de vários tipos de rankings de países, desde a qualidade de vida à liberdade de expressão. Temos criatividade; somos o país mais estável do mundo e quase livre de corrupção. Fizemos grandes progressos na igualdade de género; as raparigas finlandesas têm a segunda melhor probabilidade do mundo, para concretizar os seus sonhos. E sim, de acordo com esses mesmos estudos, somos pessoas felizes, muito embora nem sempre consigamos demonstrá-lo ao mundo exterior.

Vivemos num mundo globalizado e a posição internacional da Finlândia é forte. No entanto, nos últimos anos temos assistido quer ao lado positivo quer ao lado negativo da globalização. A mentalidade que nos levou a construir uma nova sociedade ainda está enraizada em nós - e hoje continua a impulsionar-nos para a frente. O clima ártico deu-nos coragem e garra - ou sisu, como costumamos dizer: procuramos sempre soluções práticas e esforçamo-nos para tornar os contratempos em passos em frente. Somos pragmáticos e damos enfoque à funcionalidade - asseguramo-nos sempre de que as coisas funcionam e continuam a funcionar. A nossa relação única com a natureza significa que o pensamento sustentável é algo inato para nós.

Portugal tem sido um parceiro importante para a Finlândia desde os primórdios da nossa independência. A colaboração entre os nossos dois países tem vindo apenas a aprofundar-se e a intensificar-se desde a adesão da Finlândia à União Europeia, em 1995. Apesar de estarmos geograficamente situados em lados opostos da Europa, muitas vezes encontramos sinergias. A União Europeia aproximou-nos e juntos vamos continuar a contribuir de forma ativa para o desenvolvimento da União.

É necessário continuar a abordar questões e desafios respeitantes ao estado atual e ao desenvolvimento futuro da EU, bem como sobre o modo de abordar os desafios da globalização e das alterações climáticas. Para mencionar apenas um exemplo de um fórum importante em que Portugal e a Finlândia estão envolvidos - o Grupo Arraiolos, iniciado em 2003 por Jorge Sampaio, o então Presidente de Portugal.

No campo económico, as exportações são a força motriz do crescimento em ambos os países. Somos economias abertas com mercados internos relativamente pequenos. Ambos partilhamos os mesmos objetivos na crença de um futuro apoiado nas energias renováveis, inovação e no setor dos serviços. As grandes tendências globais como alterações climáticas, sustentabilidade e digitalização vão originar uma grande procura de tecnologias limpas, smart cities e novas soluções digitais. A Finlândia e Portugal estão bem preparados para enfrentar as questões cruciais da atualidade e vamos também beneficiar economicamente em fazê-lo. As empresas finlandesas do setor de serviços estão a estabelecer-se em número crescente em Portugal e as nossas startups digitais encontram novas formas de cooperação.

Por isso podemos afirmar que temos muito mais em comum do que parece; partilhando por vezes uma mentalidade e personalidade aparentemente similares. Aparentamos partilhar a mesma tendência pela melancolia, tornando fácil relacionar o fado com os finlandeses, apesar de as letras não serem fáceis de entender. Durante mais de um século, os finlandeses criaram a sua própria versão da música tango idiossincrática, que também tem muitas vezes um lado melancólico.

"Juntos" é o tema do nosso centenário da independência. Isto também se aplica à Finlândia e a Portugal: temos vindo a trabalhar em conjunto nos últimos cem anos e vamos também continuar a trabalhar e a crescer juntos no futuro.

Presidente da Finlândia

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