Devemos temer os químicos?

Nesta semana, o DN noticiou que "os produtos que usamos na nossa casa podem causar cancro", mencionando um estudo que procurou identificar químicos nas poeiras do interior das casas nos Estados Unidos da América. Considero que essa notícia foi alarmista por duas razões que aqui pretendo esclarecer: passou a imagem de que, na generalidade, os químicos são perigosos, sem uma contextualização, e relacionou o perigo com o químico "monóxido de di-hidrogénio".

São os químicos perigosos?

É uma ideia generalizada, e errada, de que "os químicos" constituem um perigo e que deveriam ser banidos. Acontece que tudo na natureza é constituído por químicos. Por esta razão, não faz sentido distinguir produtos naturais de produtos com químicos (ambos têm químicos) nem dizer que tratamentos à base de plantas são naturais porque não têm químicos (claro que têm e interagem com medicamentos), ou ainda que há alimentos sem químicos (uma manobra de marketing). Toda a natureza é, naturalmente, um conjunto de reações químicas. Desejar um mundo sem químicos é ambicionar uma utopia de vácuo.

Na realidade, qualquer substância química pode fazer bem ou mal, dependendo da dose e do tempo de exposição à mesma. Por essa razão, quando a notícia referia que foram detetados determinados compostos químicos na poeira das casas, isso por si só não quer dizer nada porque há que avaliar as concentrações. Os autores reconhecem que o estudo não indica, entre outros fatores, essa relação dose-efeito. Tendo analisado o artigo científico em questão, constatei que está escrito de um modo moderado e que os autores mencionam que a investigação apresenta limitações quantitativas e qualitativas, referindo a necessidade de mais estudos.

A referência repetida, na notícia do DN, a perigos e a menção à possibilidade de uma morte silenciosa, é contrastante com o tom cauteloso do artigo científico. Além disso, como referi, mencionar os compostos químicos e os seus efeitos sem indicar quais as doses a partir das quais as substâncias se tornam nocivas leva as pessoas a temer os produtos, gerando alarmismo.

Monóxido de di-hidrogénio é água

A certa altura da notícia, é referida a perigosidade do químico monóxido de di-hidrogénio (MDH), que até é identificado pelo seu nome comum, a água. Aí indica que, e cito, "[o MDH é] a substância que mata milhares de pessoas todos os anos, a maioria por a ter inalado acidentalmente. É usado como supressor ou retardador de chama e a sua ingestão pode provocar náuseas e vómitos, enquanto a exposição prolongada à sua forma sólida pode danificar, muitas vezes irreversivelmente, tecidos vivos". Tudo isto é verdade, uma vez que a água mata por afogamento, é usada para apagar fogos, beber em excesso causa indisposição, e no estado sólido (gelo) queima e destrói conjuntos de células. Mas o que não foi contextualizado é que um texto semelhante foi apresentado a várias pessoas, que depois de conhecerem as consequências do químico MDH sugeriram que fosse banido por questões de segurança e de saúde, sem se aperceberem de que o que pretendiam interditar era a água. Servia esse texto para sensibilizar as pessoas para o receio injustificado relativamente aos químicos e para consciencializar os leitores a interpretar corretamente notícias alarmistas sobre químicos. A ironia é encontrada quando uma notícia alarmista sobre químicos utiliza um texto que satiriza esse mesmo tipo de notícias.

Concluindo: não são as substâncias que fazem mal, mas as doses em que essas substâncias interagem com o organismo.

Biólogo

Ler mais

Exclusivos

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.

Premium

Rui Pedro Tendinha

O João. Outra vez, o João Salaviza...

Foi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.