Impressões da América

Uma semana, de segunda a sábado, em Washington DC. Há quase 40 anos vim aqui a primeira vez - na transição de Ronald Reagan, em Dezembro de 1980 - e depois não parei de cá vir. Escrevo estas linhas na esplanada de um restaurante, esquina da Connecticut com Q. Street (Diego de Ambrosio Way). Fica a dez minutos do meu poiso habitual, no Cosmos Club, mesmo ao lado da Embassy Row e perto da Kramer Books and Afterwords, livraria em que me viciei há muito.

Como todas as grandes cidades, Washington é várias cidades: a cidade institucional e monumental - do Capitólio, à Casa Branca -, copiada de Paris pelo arquitecto Pierre Charles L'Enfant; a cidade dos escritórios, dos lobistas e dos think-tanks - Downtown, K, L e M Streets; esta zona residencial da Embassy Row, com as embaixadas (entre as quais a nossa, em Kalorama Road) e as casas dos ricos, dos "verdadeiros ricos", de Washington; o canto romântico boémio de Georgetown; e todo um melting pot (perdoe-se-me a insistência num conceito banido do qual desconheço nova designação correcta) aqui muito presente na sua singularidade.

Livros e melting pot

Os negros que vieram em massa do Sul pós-reconstrução para o Norte durante a Grande Guerra e depois continuaram a vir, vieram também para aqui e são uma maioria. Entre eles, como entre os brancos, há de tudo, até homens como o velho chauffeur de táxi que me conduziu ao som de Tchaikovsky e Rachmaninoff. Ia-me dizendo que a mãe, que era harpista, adorava o Messias de Haendel e perguntava-me se eu sabia que tinha sido um americano, Harvey van Cliburn, a ganhar o concurso Tchaikovsky em 1958. Também no Cosmos Club, entre os retratos dos ilustres, dos "prémios Cosmos", há muitos negros e negras, e na cidade, a par das baby-sitters que empurram carrinhos com meninos brancos e loiros, encontram-se jeunes-filles en fleur de todas as cores a correr ou comendo merendas ao sol dos parques.

Para meu desgosto, há cada vez menos livrarias. Aqui no bairro mantêm-se a Kramer Books e o Second Story, um fabuloso alfarrabista onde passo horas, fascinado, com tesouros bem arrumados, uns possíveis, outros não, quer pelo preço quer pelo peso.

É um tempo complicado este, sobretudo para quem, apesar de familiarizado com o meio e pouco surpreendido com a mudança e a emergência de Trump, estava habituado aos Republicanos de Reagan e dos Bush. A mudança e a diferença fundas e profundas são bem visíveis e há que ter algum cuidado (como nas ofensive questions da correcção política), não vá o nosso interlocutor ser Never Trump... ou Trump Right or Wrong.

Nos think-tanks - nos de direita ou centro-direita ou mesmo nalguns liberais - mantém-se a clássica linha internacionalista, mais realista nuns, mais ideológica noutros. Competência, expertise e aquele modo tão americano de fazer perguntas directas ou de lhes responder sem grandes estados de alma.

O facto de a África subsariana não ser uma área prioritária para a Casa Branca mantém na expectativa a nomeação do secretário de Estado adjunto para os Assuntos Africanos. Há dois ou três nomes na lista, mas não há nomeação formal. Por isso, na "terra do pragmatismo", nomearam para já um "acting" subsecretário, que irá ficando. Tem um nome curioso, Donald Yamamoto, o nome do almirante que comandou o ataque a Pearl Harbour e que foi depois morto numa emboscada aérea pelos americanos. Este é capaz de ter tido um avô, ou até um pai, "internados" durante a Segunda Guerra, como a maioria dos nipo-americanos. Mas agora está no governo e é considerado um diplomata de primeira qualidade. Isto também é a América.

Fico-me por este "alto" do Dupont Circle - Embassy Row, aproveito o sol de fim de Verão, vejo velhos amigos, mas também novos, da idade dos meus filhos, que são quem toma agora conta das ocorrências. Acabo a semana na sexta-feira à noite a jantar na M Street, em Georgetown; daqui também desapareceram a Barnes and Noble, a Olson Books e alguns restaurantes de que fui habitué. Mas nas ruas, a multidão é como a do Bairro Alto, a do Quartier Latin ou do Madrid Viejo no Verão; uma multidão multiétnica, multilinguística, multicolor, mais jovem que velha, gente da América.

Furacões e Shakespeare

Um amigo - republicano, conservador, 100% establishement - perante a minha perplexidade e indignação com a "guerra das estátuas", disse-me que visse no YouTube o discurso de Mitch Landrieu, mayor de New Orleans, para perceber melhor as razões do "outro lado". Fui ver. Tocaram-me mas não me convenceram. Vejam também, mas entre acção e reacção, entre os "Antifas" e os "Supremacistas Brancos" (ou o que seja que lhes chamam) para onde vai a América?

Na Florida, onde estava para ir e não fui, sete milhões fogem aos tufões. A leva dos furacões, agora com nomes alternados femininos e masculinos - Harvey, Irma, e até José e Maria -, ronda e redemoinha, para se precipitar, sinistra e com uma força nunca vista sobre as costas da Florida.

Por livros e furacões, lembrei-me de Shakespeare e dos ventos invectivados pelo pobre e despojado Rei Lear, a tremer, nu e ao vento, seguido pelo seu bando de fiéis maltrapilhos: Blow, winds, and crack your cheeks! Rage, Blow! You cataracts and hurricanoes, spout. Na Tempestade, é um bruxo-cientista, um duque exilado, Próspero, quem desencadeia o temporal que causa o naufrágio e atrai para a ilha, como náufragos, os usurpadores do seu ducado de Milão. O furacão causado por Próspero inspirava-se no naufrágio do Sea Venture, em 1609.

A peça é de 1611, uma das últimas de Shakespeare, e trata de coisas e de seres extraordinários: utopia, poder, poderes, encontro e desencontro de seres e culturas, pulsões incestuosas, vingança e reconciliação. Caliban, o escravo deformado, e a mãe, rainha da ilha que Próspero usurpa como palco para reaver o seu ducado usurpado, manipulam a "magia negra" que enfrenta a "magia branca" de Próspero e de Ariel, o seu espírito diáfano. Nunca vi a peça representada mas vi a versão em cinema de Peter Greenaway, com John Gielgud a fazer de Próspero. É em The Tempest que a filha de Próspero, a bondosa Miranda, fala nas "many goodly creatures" deste "brave new world" (Oh, wonder! How many goodly creatures are there here! How beauteous mankind is! O brave new world, That has such people in"t!)

Mas neste nosso "brave new world" os tornados que passam pela América parecem varrer as "goodly creatures" da nossa "bela humanidade" para longe da reconciliação, e às vezes sentimo-nos como o velho e destituído Lear, perante um velho admirável mundo novo de ventos e furacões sem fim.

Escritor e historiador

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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