Histórias de violência

Cada colombiano tem uma história de violência para contar. E cada história começa com uma fotografia. Uma exposição em Bogotá, sobre a violência e os atentados de que a cidade foi vítima durante décadas, ajuda a contextualizar a memória de um povo através da fotografia. Não precisam de cor, nem de movimento, nem do som que facilmente imaginamos, para que cada um daqueles disparos - nunca a palavra foi tão adequada - de máquina fotográfica nos dê a conhecer violência das mais diversas formas sobre vítimas indiscriminadas. Tráfico, vítimas. Guerrilha, vítimas. Milícia, vítimas.

Este texto estará disponível dois dias depois de aterrar em Rionegro, nos arredores de Medellin. Uma pequena cidade abraçada pelos Andes, a trinta minutos de avião da capital, e protegida dos mais históricos conflitos colombianos. Encontrar-me-ei com representantes de vários municípios agora designados de pós-conflito, mas que ainda hoje o têm de forma latente (ou, em alguns casos, ainda bem visível).

As questões imediatas que surgem são muito óbvias, mas igualmente difíceis de responder. Pode uma cidade conviver com o conflito? Pode a memória colectiva ser construída com base em relatos e experiências regulares de violência e insegurança? Poderíamos até partir do pressuposto de que essa seria a consequência do que torna um qualquer aglomerado ou assentamento numa cidade: a concentração de pessoas e o consequente confronto com a diferença. Como facilmente descobrimos em qualquer velho manual sobre as virtudes da vida urbana, não é difícil encontrá-la como sinónimo de encontro e proximidade. E se a diferença é apresentada como ingrediente do sucesso das cidades na história da humanidade, factor que multiplica a criatividade, a inovação, e o desenvolvimento, também não é difícil considerá-la na longa lista de condições que explicam o conflito.

Mas a cidade conta-se, não se antecipa. Conta-se como um conjunto de histórias, de memórias e formas de a conhecer. Aqui em Rionegro, ouço, na voz dos alcaldes, o som da violência que as fotos na exposição em Bogotá apenas deixam adivinhar. Recordam-me que o projecto de vida em cidade é um projecto de convivência e de respeito por regras partilhadas. Que a memória colectiva construída com base na experiência da violência gera, certamente, uma forma de viver a cidade muito diferente daquele a que estamos habituados noutros contextos. Explicam-me, de forma assustadoramente simples, como o exercício da construção de urbanidade é um acto contínuo e de negociação permanente.

O direito à cidade é também o direito à liberdade de viver em segurança.

Pró-reitor da Universidade de Aveiro

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