"Fazer da cultura a máxima das ficções"

Para mim, Umberto Eco é um caso extraordinário e dos mais representativos de uma personalidade que foi capaz de fazer da cultura a máxima das ficções. É essa capacidade que o distingue não só no panorama intelectual italiano como também no europeu. Era preciso ser como Umberto Eco, um herdeiro de praticamente toda a cultura ocidental, para estar à altura de fazer o que ele fez e, paralelamente, aquilo que nos legou.

Não posso deixar de dizer que é uma grande perda para a cultura neste momento que vivemos. Porque se existem alguns outros herdeiros como ele, também é difícil encontrar alguém tão singular, devido à vastidão dos campos que tocou. O que torna o seu caso ainda mais interessante porque, sendo a italiana uma das grandes culturas europeias, também é uma que paradoxalmente tem menos visibilidade no sentido mítico do termo quando comparada com o que já teve de esplendor. E aconteceram tantos grandes momentos no passado que era bem difícil acrescentar qualquer coisa ao que foi no passado.

Há outros ensaístas que rivalizam com Umberto Eco, como se pode dizer de Claudio Magris, que tornaram a pôr a Itália num sítio que só ela merece. O de um país que sempre deu muita gente e do qual todos nós somos herdeiros, afinal somos todos filhos de Roma. Que é o melhor que nos aconteceu até à atualidade, o ser filho de Roma e também de Jerusalém, como era a situação de Eco, pois tinha as duas componentes.

Eco é mais novo do que eu, que não tive a sua formação filológica e semiótica, a minha foi unicamente especulativa e filosófica, mas via nele isso também e todo o resto. De facto, era um grande - e a palavra está muito gasta - humanista. Que pressionava o próprio humanismo. Para mim, esse é o maior legado que deixa.

* Filósofo

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