Dividir para reinar

Dos problemas económicos recentes a nível mundial, ao medo dos imigrantes e à pandemia do coronavírus, todos estes problemas tiveram uma forte influência no comportamento dos líderes populistas em muitos países. A maneira como os populistas tentam sair das crises, independentemente da sua origem, é geralmente semelhante e tem potencial para prejudicar o equilíbrio básico das relações de diferentes grupos sociais, religiosos e raciais dentro dos países.

Todos os países têm problemas, mas diferem na forma como as suas elites políticas tentam resolvê-los. Isso depende de vários fatores, mas o que podemos testemunhar atualmente é uma tendência para os governos procurarem cada vez mais medidas não para resolverem necessariamente os problemas dos países, mas para manterem os governantes no poder. Deixou de ser uma busca constante pela ação que seja a mais popular entre os eleitores e gere apoio da grande maioria, mas apenas por aquela que estabeleça laços mais fortes apenas com o número suficiente desses mesmos eleitores que possam, com seus votos a curto prazo, mantê-los no poder.

Esse tipo de política leva inevitavelmente a divisões na população de muitos países, com base em qualquer fator potencial que possa criar essa divisão. Como é sabido que qualquer sociedade tem terreno para promover muitos tipos de divisões, o líder populista escolhe aqueles que podem produzir efeitos imediatos, independentemente dos danos a longo prazo para toda a sociedade. Assim, as diferenças sociais entre os ricos e os pobres, as classes altas, médias e baixas da sociedade, os grupos religiosos com menos apoio público, as diferenças raciais ou a origem dos imigrantes, são os melhores campos de batalha para o populista e a maneira mais fácil de as vencer.

Atacar permanentemente ex-governos e os grupos políticos que estiveram anteriormente no poder também é muito "popular".

A principal razão para esse tipo de situação está na necessidade dos populistas identificarem o inimigo contra o qual estão em permanente luta, em nome dos seus apoiantes. É uma política muito simples, compreensível para a maioria das pessoas e não possui os riscos políticos que a introdução de medidas impopulares para o benefício a longo prazo da sociedade possa acarretar. Os políticos que estão prontos para perder as próximas eleições em prol do bem de toda a sociedade são agora muito raros e podem desaparecer da cena política muito em breve, pelo menos por algum tempo. Os efeitos imediatos, mesmo que criem sérios problemas no futuro, são muito mais valorizados na política do que qualquer sacrifício político que alguém possa fazer.
No final, todas essas medidas estão apenas a dividir as sociedades e a empurrá-las deliberadamente para o conflito com os outros grupos, sem nenhum benefício para ninguém, exceto para os populistas no governo. Enquanto esse conflito puder ser mantido sob certo controlo do Estado, as coisas poderão continuar de uma ou de outra maneira, mas o risco do caos aumentará gradualmente até ao nível em que a liderança populista se mostrará incapaz de assumir o controlo sem mais violência, desta vez pelo Estado.

O mais fácil para os populistas é fazer promessas. Todos os políticos as fazem, mas a diferença está na fração da sua realidade óbvia e potencial (ou o oposto). Nas sociedades sob pressão do número de problemas, que vivem de crise em crise, sejam elas de cariz económico, de saúde ou raciais, essas promessas servem como um medicamento que aliviará os sintomas da doença (aspirina). Mas a doença em si não será eliminada. Ela crescerá, sem nenhuma hipótese de a imunidade das pessoas se desenvolver a longo prazo. Entretanto, alguns populistas têm a oportunidade de tornar as suas vidas muito mais confortáveis, fazer acordos, aproveitar todos os benefícios que puderem, começando a acreditar que o poder político ficará para sempre nas suas mãos.

Do lado dos eleitores, as coisas serão cada vez piores, até perceberem que os grupos oponentes não são os responsáveis ​​pelos problemas, mas antes aqueles que já receberam o seu apoio nas urnas. No mundo de hoje, não há experiência suficiente sobre o que acontecerá quando as pessoas se aperceberem desse facto. Depende do nível de compreensão do sistema democrático e do controlo independente do governo, do direito de mudar pacificamente os que estão no poder pelo voto, que é o cerne de qualquer sociedade para que possa prosperar e aumentar a qualidade de vida de cada indivíduo.

A pertença ao grupo, que é outra base da política populista, não se pode opor à realização futura da verdadeira qualidade de vida de cada eleitor individualmente, independentemente da "segurança" artificial de se ser membro do grupo. Esse momento tem de chegar, mas os países irão diferir na dimensão dos danos causados até então.

Antigo embaixador da Sérvia e investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE

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