A transformação do arsenal do alfeite em sociedade anónima foi um erro histórico?

O avaliar, no quadro atual, a desastrosa situação do Arsenal do Alfeite como sendo resultante de um "erro histórico " é perfeitamente natural por parte de quem tem que lidar, no dia-a-dia, com um processo de degradação sucessiva de um estaleiro que deteve, e possivelmente ainda detém, capacidades impares na industria naval portuguesa e uma tradição sindical de que muito legitimamente se orgulha.

De facto, a transformação do Arsenal do Alfeite em sociedade anónima feita para modernizar o seu modelo de funcionamento, que datava dos anos trinta do século passado, tem-se revelado um insucesso e incapaz de se traduzir em indicadores de competitividade e de produtividade satisfatórios.

Foi por minha iniciativa e responsabilidade como Chefe do Estado Maior da Armada que, após mais de vinte anos de estudos e contra -estudos, esse "erro histórico " se veio a concretizar em 2009, após um processo de reflexão e aprofundado estudo efetuado pelas mais competentes pessoas que à altura existiam e que visou, tão só, salvar o arsenal do Alfeite, estaleiro indispensável à operação da Marinha.

Para além do "benchmarking" pelo menos do que se passou em Espanha, no Reino Unido, na França e na Holanda, a análise focou-se, entre 2007 e 2009, caso a caso e com muito detalhe, nos recursos humanos, nos processos, na produtividade, na adequação da gestão, no equipamento disponível, no enquadramento estatutário etc..

Não foi, portanto, por mero impulso reformador, nem de ânimo leve, que foram tomadas decisões muito difíceis com impacto direto nas pessoas, nos processos, no equipamento, na gestão e também na forma de relacionamento entre a Marinha e o estaleiro .

Entre outros fatores, esse estudo identificou, prontamente, três questões fundamentais :

-Excesso de mão de obra

-Obsolescência de equipamento

- Estatuto inadequado

É evidente que, desde logo, se verificaram resistências à mudança, quer na Marinha quer no estaleiro mas, para mim, liderar é fazer as coisas certas ou que julgamos certas....e o pior é não ter opinião, ou mesmo não decidir....por isso, não hesitei e empreendi a mudança, por minha única e exclusiva iniciativa, contando com o apoio imprescindível do almirantado e da tutela.

Quando digo que se tratava de salvar o Arsenal, digo-o com convicção e certeza pois era evidente que com a crise financeira ocorrida a partir de 2008, no mundo e em Portugal, o orçamento militar iria ser fortemente reduzido e de tal forma que seria impossível para a Marinha transferir anualmente para o Arsenal os cerca de 25 milhões de euros imprescindíveis ao seu funcionamento.

O futuro veio a dar-me razão bastando recordar as dificuldades que, nos anos seguintes, (2011,2012 etc...) se vieram a verificar, e que ainda hoje persistem, mesmo no domínio do orçamento para operação dos navios limitando, inclusivamente, o simples navegar...

Era decisiva a mudança pois, se nada fosse feito, a possibilidade de encerramento era real... os mais de trinta hectares ribeirinhos de que dispunha eram um forte incentivo ao empreendedorismo imobiliário de luxo o que me foi, por diversas vezes, e insistentemente, sugerido...

É obvio que os indicadores de gestão hoje não serão os melhores, até em comparação com alguns períodos do passado... mas, a outra opção, o encerramento, seria muito mais gravosa para a Marinha, para o estaleiro, para os trabalhadores e...para o país! . Cabe aqui referir que, por exemplo, os atrasos no Arsenal não são de hoje...recordo muito bem os tempos de embarcado em que a norma era o incumprimento de prazos e mesmo a existência de períodos de reparação de tal forma dilatados que, vários casos houve, em que os navios foram abatidos sem que conseguissem sair do estaleiro...

É claro que neste processo de transformação em sociedade anónima muitos erros evitáveis têm sido cometidos...entre muitos sublinho:

-A excessiva diminuição da mão de obra civil em especial da mais qualificada

-O expurgo da altamente habilitada mão de obra militar

-A não aplicação das verbas disponíveis em 2010 (perto de 20 milhões de Euros) para a imprescindível modernização

-O estrangulamento financeiro devido quer a cativações, quer à burocracia do Estado imposta ou natural.

-A nostalgia de um passado impossível de replicar.

- A sucessiva rotatividade das administrações, algumas delas altamente competentes, cabendo aqui referir que sempre existiu um "acordo de cavalheiros" para que todas elas incluíssem um membro da Marinha o que não aconteceu na última remodelação de uma equipa que, de facto, tinha empreendido mudanças efetivas que já apresentavam resultados inquestionáveis..... razões que a própria razão desconhece....

-O difícil relacionamento, não só pontual, com a Marinha por razões imputáveis às duas organizações e que muito dificilmente irá melhorar com a atual equipa.... E é sabido que são as pessoas, sempre as pessoas, que determinam as organizações.

Em síntese; considero que não há Marinha (o seu quase único cliente) sem Arsenal e vice-versa e que, se a situação do Arsenal é hoje muito grave, não menos grave é a situação operacional da esquadra pelo que urge o empreender de ações adequadas exequíveis e aceitáveis (que incumbem essencialmente à tutela politica) para reverter a situação... Sobretudo sensatas!

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