A radioterapia não chega a todos – e vai fazer cada vez mais falta

É uma técnica segura e minimamente invasiva para o doente de cancro, sendo também uma das mais eficazes. Mas, em Portugal, mais de 40% dos pacientes não recebem a radioterapia necessária. E até 2025, a necessidade deste tratamento deverá aumentar até 16%.

O panorama da radioterapia em Portugal e os principais desafios que o tratamento enfrenta foram discutidos por dezenas de profissionais, portugueses e estrangeiros, no Fórum Cuid"ART da Associação Portuguesa de Radioterapeutas, no início deste mês. Estabelecemos duas prioridades, que estão interligadas: informar e sensibilizar cidadãos e profissionais de saúde para também poder melhorar a acessibilidade aos serviços de radioterapia.

Acreditamos que através de campanhas de sensibilização para a evolução do cancro na sociedade, tal a Campanha do Legado da Marie Curie é possível despertar para realidades pouco conhecidas e que estão na base de prognósticos mais reservados. As vantagens do tratamento não são conhecidas pela população em geral. É necessário apostar na literacia em saúde e principalmente nas zonas mais desertificadas do país, geralmente associadas a rastreios insuficientes e na falta de equidade no acesso a radioterapia e às técnicas de tratamento mais adequadas e sofisticadas.

Os desafios impõem-se no presente, e preparam-nos para o futuro. O tratamento oncológico por radiação é indicado em mais de metade dos novos casos de cancro e um elemento indispensável num programa de controlo de cancro. Em 2012, o número de novos casos de cancro em Portugal foi de 49.174 e prevê-se que, em 2025, este número aumente para 57.436 novos casos. De acordo com os resultados do Projeto HERO da ESTRO (European Society for Radiotherapy and Oncology), até 2025, a necessidade de radioterapia deverá aumentar em até 16%. Contudo, de acordo com o mesmo estudo, em Portugal, mais de 40% dos pacientes não recebem a radioterapia necessária.

As nossas expectativas focam-se em chamar a atenção do poder político para a implementação das campanhas massivas em todo o território nacional, com muita preponderância nas regiões mais desertificadas e carenciadas, como o Alentejo, o Algarve e outras regiões do interior, e também as ilhas. Esperamos que o nosso trabalho possa também ser útil no que concerne à abertura de unidades de radioterapia em locais do país menos centralizados, para que toda a população tenha acesso mais igualitário aos tratamentos.

Não se pode apenas implementar uma unidade de radioterapia para suprir necessidades, de um modo simplista. É necessário que se compreenda a necessidade de formar mais profissionais ligados à oncologia e as administrações hospitalares de que os doentes oncológicos têm necessidades concretas e que as infraestruturas criadas devem formar uma rede consistente de multidisciplinaridade na avaliação de cada caso, de forma que o acesso aos cuidados seja igualitário e o mais centrado no doente possível.

As distâncias dos centros hospitalares ou departamentos com esta valência terapêutica são determinantes para a constituição do que consideramos o maior entrave ao acesso à radioterapia. A área tem vindo a ser alvo de renovações, no entanto, com melhor ensino dos profissionais e mais investimento no parque tecnológico de aceleradores lineares, o país possa dar resposta às necessidades. Descentralizar as unidades, o mais possível, para que não sejam necessárias grandes e complexas deslocações para doentes com características "especiais", constitui uma preocupação.

Por outro lado, é cada vez mais importante investir nos programas de rastreio e saúde primária em todas as regiões do país, para minimizar a taxa de deteção em estádios avançados e consequentemente terapêuticas mais agressivas, com efeitos secundários indesejáveis. É preciso desmistificar os rastreios e o diagnóstico precoce através de exames como a colonoscopia e a mamografia. Sabemos por exemplo que, neste momento, esperam-se respostas sobre as implementações de rastreios de cancro colorretal em alguns locais do país, locais esses onde a incidência desta doença é já considerada pelas autoridades de saúde um caso de saúde pública.

A acessibilidade dos doentes oncológicos, que passa por bons transportes com condições de segurança, pode também ser apontado como um motivo para que os doentes não cheguem atempadamente ou nem cheguem até às unidades, que muitas vezes, se situam afastadas a bem mais de 100 quilómetros das suas residências. Para um doente que vive longe dos centros urbanos, que deixará a sua família (quando esta existe, pois há cada vez mais relatos de casos de abandono e solidão que surgem nos nossos departamentos), pode ser um fator demovedor da adesão do doente ao tratamento.

Associada ao facto de o parque tecnológico estar localizado nos grandes centros urbanos, existe uma grande percentagem de equipamentos com tempo de utilização superior a 10 anos. Isto significa uma incapacidade crescente de responder às novas metodologias de aplicação com técnicas de alta precisão, como IMRT/VMAT, SBRT e Radiocirurgia, capazes de reduzir tempos globais de tratamento (menos sessões), para maximizar o controlo local e menores taxas de complicações e uma melhoria significativa da qualidade de vida. Os profissionais de saúde, apesar de estarem minimamente informados acerca dos benefícios da radioterapia, principalmente ligados à oncologia, necessitam de estar atentos aos desenvolvimentos da última década que trouxe maior eficácia na administração do tratamento.

Além de a radioterapia ser uma técnica segura e minimamente invasiva para o paciente, encontra-se também entre as mais eficazes. Estima-se que, se todos os doentes tivessem acesso à radioterapia até 2035, isso impediria o cancro de progredir em 2,5 milhões de pessoas e seriam salvas 950 000 vidas por ano, na Europa. Além disso, é também um tratamento vantajoso em termos de custo: na Europa, apenas 5% a 10% dos orçamentos para o tratamento do cancro são gastos em radioterapia.

A Associação Portuguesa de Radioterapeutas assumiu o compromisso da união com as associações de doentes para que, em conjunto, possamos chegar mais e melhor aos doentes seus familiares e amigos. É da estreita ligação entre os profissionais que colaboram na equipa multidisciplinar da Radioterapia/Radioncologia que será possível desenvolver campanhas de sucesso com vista a melhorar a qualidade de vida do doente oncológico.

Presidente da Associação Portuguesa de Radioterapeutas

FORUM Cuid"ART 2018

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