A passarola de Merkel e a geringonça de Costa

O que se está neste momento a passar na Alemanha vai marcar o futuro também em Portugal. O próximo governo em Berlim vai dar um empurrão à União Europeia ou empurrá-la para o precipício? Dois meses depois das eleições, Angela Merkel continua a tentar, a todo o custo, arranjar uma solução para se manter como chanceler e evitar novas eleições, depois do fracasso da coligação Jamaica (entre os Verdes, os Liberais do FDP e a CDU de Merkel). O problema é que se não houver um governo claramente pró-europeu em Berlim isso causará irremediáveis problemas a toda a UE.

Felizmente, Merkel não pode nem quer seguir o rumo do seu vizinho e colega austríaco, o jovem chanceler Christian Kern, que está em negociações com a extrema-direita para formar um governo de coligação.

Mas a Mutti (mãezinha) dos alemães está a ficar sem grandes opções além de uma nova grande coligação com o SPD ou de um instável governo minoritário. Merkel deveria estar neste momento cheia de inveja a olhar para Portugal.

No SPD, o partido da família socialista ao centro liderado por Martin Schulz, ganha crescente aceitação a ideia de uma nova coligação com a CDU, contra todas as tomadas de posição antes e depois das eleições.

Para a UE seriam boas notícias, talvez a grande oportunidade para aprofundar a União. Mas para a Alemanha são péssimas notícias. O medo da solução óbvia (novas eleições), por receio de reforçar ainda mais a extrema-direita, que como terceira força já tem um peso enorme no Bundestag, está a levar o SPD a inverter a sua decisão. Uma reedição da grande coligação irá enfraquecer ainda mais o centro nas próximas eleições, dentro de quatro anos. A não ser que Merkel e Schulz, ou os seus sucessores, consigam dar os passos decisivos que Schäuble sempre soube impedir e tornar a UE uma força mobilizadora e estabilizadora também no plano interno.

Mas Merkel ainda não olhou bem para Portugal. Aliás, a Alemanha quase nunca olha para Portugal. Devia fazê-lo. Portugal, ao contrário da Alemanha ou da Áustria, tem evitado as grandes coligações dos dois principais partidos. São essas coligações, dos partidos ao centro da paisagem política - mais ainda do que a rotatividade entre o centro-esquerda e o centro-direita -, que levam ao reforço dos partidos periféricos. A perda de definição entre direita e esquerda, ao centro, tem dado força aos extremos, às esquerdas marxistas, utópicas e radicais e às direitas nacionalistas, xenófobas e racistas.

Os partidos das famílias socialistas na UE começaram a perder o seu perfil de defensores dos direitos sociais a partir da Terceira Via de Blair, no Reino Unido, e da Agenda 2010 de Schröder, na Alemanha. E os partidos de perfil conservador, ao centro, abraçaram tantas causas historicamente de esquerda que tornaram muito volátil grande parte do seu eleitorado. Resultado: o centro político nos países da UE está em processo de diluição. Menos em Portugal.

Se Portugal tivesse seguido a receita alemã das grandes coligações, teria, há dois anos, optado por um governo liderado pelo PSD e coadjuvado pelo PS como parceiro “júnior”. Isso teria sido um erro para o PS, que muito ajuizadamente recusou uma grande coligação.

Depois de anos de austeridade, imposta por Berlim, Passos Coelho transformou-se numa espécie de porta-voz do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, com um pouco mais de cabelo, e Maria Luís Albuquerque, a ex-ministra das Finanças, num Schäuble em miniatura, com cabeleira loura.

António Costa demarcou-se com sucesso dos anos traumáticos do diktat financeiro alemão, formando um governo minoritário com apoio parlamentar de comunistas clássicos e modernos. Com isso colocou o PS português como referência para todos os partidos ao centro na Europa.

Mais importante do que governar com maioria é manter a imagem de marca intacta.

Merkel está disposta a tudo para não ter de sair de cena pela porta pequena. Mas muitas semanas de negociações para formar uma coligação com os Verdes e o FDP só mostraram que a “passarola” idealizada, em vez de levantar voo, se desfez no embate com a realidade. A Alemanha é ótima na construção de veículos em série. Mas montar geringonças exige outra escola.

Correspondente der Freitag e EN-24