A pandemia ensinou-nos algo?

Desde fevereiro estamos a tentar saber do vírus: é agressivo? É letal? É contagioso? Há remédios? Há vacinas? Sentimo-nos insignificantes, nada, com a incapacidade de o dominar.

Isso lembrou-me passagens do Evangelho, quando o povo, ante as aflições de doenças e sofrimentos, corria atrás de Jesus e levava doentes, para Ele curar. O povo devia sentir-se como nós, perante o vírus.

Apesar da arrogância e autosuficiência, ao ver as descobertas da ciência e tecnologia e os avanços da medicina, num instante nós sentimo-nos como um zero!

E isso fez-nos virar para o Criador,...a perguntar: como sair disto?

Recuperada a serenidade, fomos reagindo. Ações imediatas: não nos expormos, evitarmos contágios, ficarmos isolados, etc. A tranquilidade para pensar sem correrias, fez-nos ver coisas importantes, que quando atarefados não víamos:

1. O sentido do dever, da responsabilidade e a generosidade dos agentes de saúde, expostos ao vírus, embora protegidos, para atender os doentes. Longas horas extra e sem descanso...

2. E dos agentes de segurança, para fazerem respeitar o confinamento;

3. Do pessoal das farmácias e supermercados;

4. O sacrifício dos trabalhadores do e-commerce, para entregar as encomendas de alimentação e outras, a quem está retido;

5. Os hotéis transformados em enfermarias, porque a sobrevivência de muitos o exigia e ninguém discutiu. Uma vida vale sempre uma vida!

6. Um forte sentido de solidariedade, para nos protegermos todos, pois um descuido meu pode ser fatal para os outros.

Na onda de generosidade, muitos pensaram nos mais próximos, nos familiares e vizinhos -alguns velhos e acamados, outros sem meios-, para ter um gesto de enviar alimentos, ofertas, um serviço, um telefonema para quebrar a solidão... Teremos sentido o palpitar de corações agradecidos, que antes nem conhecíamos; e experimentado a enorme alegria de dar...

Tudo isso terá despertado o fio de humanidade, talvez perdido dentro de nós, por falta de uso. Muitas fundações e iniciativas pessoais ou coletivas esvaziaram os cofres para acudir aos necessitados, com comer, transportes para migrantes, etc. E o céu ficou mais azul e sem poluição...

Para muitos foi a oportunidade de trabalhar de casa, evitando longas deslocações. Menos produtivos, no início, mas depois, com experiencia e organização, bem mais. Será essa a solução futura? Não sei, mas a virtude andará aí pelo meio..

Muitos não queriam saber do e-commerce, que era um risco. Mas a necessidade fê-los experimentar e tornou-os incondicionais; mesmo para adquirir produtos de mercearia e vegetais, coisas que antes só vendo e tocando...

As empresas de e-commerce estão a investir somas astronómicas, para poderem servir a população, ganhando também o seu. A elevada densidade e a propensão indiana para as tecnologias fez do país o campo de experimentação das novas ideias.

Não apenas a Amazon.com, a Walmart com o Flipkart, a Reliance Jio, mas grossistas e cadeias de retalho indianas deixaram-se seduzir pelo e-commerce e encontraram soluções imaginativas.

A tecnologia fez entrada no ensino à distância, em reuniões e videoconferências; no uso da robótica para evitar contactos; na inteligência artificial para atendimento nos balcões; na digitalização do pequeno comércio, pelo país, que assim ficará moderno, e aderindo a uma e-plataforma, poderá ser o elo final da cadeia, para a entrega dos produtos na proximidade. Há mais de 30 milhões de kiranas, que assim se modernizarão e terão mais trabalho. E virá o 5G da Jio, projeto indiano, que poderá revolucionar as comunicações, o acesso aos media eletrónicos, o ensino, etc.

Os trabalhadores, vindos às cidades para obras de construção civil e infraestruturas, para o comércio, para os táxis e rickshaws, viveram tempos difíceis, sem trabalho. E ao regressarem às suas aldeias, ficou clara a sua importância e a pouca atenção que recebiam dos ricos e poderosos, que os "utilizavam". Tomar consciência da importância, deve levar a associarem-se, para exigirem mais alojamentos de renda acessível, transportes oferecidos pelas companhias contratantes, seguros de vida e de saúde, etc. Foi o momento propício para focar a atenção nos pobres, que vivem mal e que mais sofrem com a pandemia.

A logística de distribuição e a rutura de stocks que viriam da China fez pensar na autosuficiencia local de alguns produtos de proteção e para a saúde e naprodução distribuída pelo país em unidades pequenas,tanto na agricultura e pecuária, na aquacultura em tanques, cooperativas de leite e derivados e para os produtos farmacêuticos, industriais e de artesanato, unidades de "call centres", etc. Pode ser a oportunidade de criar ou expandir pequenas e médias empresas de todos os ramos, nas zonas rurais, que continuam a ser os grandes criadores de empregos.

Também empresas de artesanato local, de produtos para a decoração de interiores, mobílias com toque artístico e toda a variedade de artigos de perfumaria, de higiene e joalharia, poderão ficar em grande realce. Aliás a Fabindia deu já o sinal da importância ao ter hoje mais de 330 lojas de grandes dimensões, bem situadas, nos aeroportos e nas grandes cidades com afluxo de passageiros e turistas. Ela adquire produtos a mais de 55.000 fornecedores, do tipo familiar, no país todo. As compras são feitas através de 17 centros, que também prestam apoio e ideias de melhoria da qualidade, de processos, de tecnologia, cores, padrões, etc. roupas e acessórios para criança, mulher e homem, texteis-lar, colchas, e a ampla gama de produtos que se poderiam designar de étnicos. Isso fará reavivar a atividade em pequenos centros rurais, dando vida própria e fazendo o trabalho mais apreciado e bem remunerado.
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Professor da AESE Business School

(Artigo originalmente publicado n'O Heraldo de Goa)

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