A palavra Descobrimentos não está proscrita nem tem peçonha

O programa eleitoral de Fernando Medina promete a construção de um Museu das Descobertas (ou dos Descobrimentos) em Lisboa. Há dias, o Expresso publicou uma carta contra essas designações e também contra a de Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, que fora entretanto sugerida por Matilde Sousa Franco. A carta foi assinada por mais de cem historiadores e cientistas sociais, vários dos quais conheço e considero, o que não me impede de discordar do que subscreveram. Porquê?

1- Diz-se na referida carta que a palavra Descobrimentos foi "frequentemente usada durante o Estado Novo para celebrar o passado histórico" e "convoca, por isso mesmo, um conjunto de sentidos que não são compatíveis com o Portugal democrático". Ora, as palavras não são propriedade de ninguém nem prisioneiras de nenhum período histórico. O facto de Descobrimentos ter sido usada e abusada no período salazarista não desclassifica a palavra nem a contamina para todo o sempre. Descobrimentos já se usava muito antes de Salazar e continuou a usar-se depois. Basta recordar que existiu há poucos anos uma comissão nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, sem que essa designação tenha conotado a dita comissão com o salazarismo ou imposto alguma canga ideológica ao seu trabalho ou ao país.

2 - Diz-se na carta do Expresso que o que se faz na actual investigação são "exercícios de reflexão crítica" que escolhem as "melhores palavras" para evitar imprecisões e melindres, e que têm construído histórias "não nacionais" porque "incluem pessoas e experiências de vários espaços geográficos". Os museus - alega-se - não podem ignorar isso. Porquê, então - pergunta-se -, insistir na palavra Descobrimentos, que só valoriza os portugueses "em vez de valorizar, tanto quanto for possível, as experiências de todos os povos que estiveram envolvidos neste processo?" E sugere-se, até, que a utilização dessa palavra comprometeria por si só o futuro museu, mesmo que, depois, no seu interior, os aspectos negativos e positivos dos Descobrimentos viessem a ser "exemplarmente narrados".

Mas pode um nome comprometer as coisas a esse ponto? E estarão erradas e em desuso as perspectivas e designações nacionais para evocar museologicamente os grandes acontecimentos do passado? Não sou museólogo, mas julgo que não. A França tem vários museus napoleónicos. Os seus nomes evocam um homem odiado por muitos dos povos que os seus exércitos trucidaram. Deveriam tais nomes mudar para atender à visão negativa que os portugueses, por exemplo, conservam das invasões francesas? Não oiço defender tal coisa nem me consta que haja gente chocada com os museus de Napoleão. Nem que os povos cujos antepassados foram atacados pelos vikings se sintam ofendidos com a sua evocação no Museu de História Nacional sueco. Mas mesmo que algumas pessoas mais susceptíveis se sentissem incomodadas com a existência desses museus e exposições, seria isso motivo para que franceses e suecos abandonassem designações universalmente conhecidas e reconhecidas de períodos marcantes do seu passado? E deverá Lisboa seguir um rumo diferente?

3 - Os signatários da carta acham que sim. Consideram que chamar Museu dos Descobrimentos a um futuro museu é uma forma de "privilegiar" o ponto de vista português, "impondo-o a outros que dele não partilham". Impondo-o? Não será antes propondo-o? Ou mostrando-o? E não será natural que em Portugal haja, e em posição muito importante, um ponto de vista português? O que seria insólito é que os portugueses quisessem que um museu malaio ou angolano fosse designado de acordo com a sua sensibilidade. Todos valorizamos, e bem, a visão do outro, mas a ideia de que se pode ver e contar tudo de todos os ângulos em simultâneo, e que isso constitui por si só um enriquecimento, é algo ingénua porque, por norma, na narrativa histórica - e, presumo, museológica - aquilo que se obtém por um lado perde-se por outro. O que se ganha em diversidade perde-se em profundidade e uma acumulação de diversidades pode levar a um bloqueio ou a uma salada-russa. Se for preciso "considerar o ponto de vista e a percepção de todos os envolvidos", como se pede na carta do Expresso, ou não haverá museu ou será uma amálgama.

4 - Afirma-se na carta que "a questão não é apenas a do nome, mas aquilo que o nome representa enquanto projecto ideológico". Mas qual é o projecto ideológico dos signatários da carta? O texto que assinaram é essencialmente negativo, isto é, trata-se da rejeição de certas designações, mas não avança com nenhuma alternativa, não nos propõe um nome.

O arqueólogo Luís Raposo - que, como eu, discorda da carta do Expresso - é mais construtivo e tem, tal como Matilde Sousa Franco, uma proposta. Num texto em que passa em revista alguns nomes possíveis, Luís Raposo decide-se por Museu da Viagem, um projecto capaz de abarcar as deambulações portuguesas pelo mundo, em todas as épocas, incluindo as migrações do tempo presente. Nesse museu reservar-se-ia um lugar de relevo para aquilo que o arqueólogo designa por "ciclo dos chamados Descobrimentos". Estará a sua ideia prejudicada ou fragmentada pelo recentíssimo anúncio da construção de um Museu Nacional da Emigração, em Matosinhos? Será demasiado ambiciosa? Eu preferiria um projecto menos amplo, essencialmente focado no período dos Descobrimentos, designação que não pode nem deve ser liminarmente excluída da mesa das decisões. A palavra Descobrimentos não está proscrita nem tem peçonha. A sua utilização não implica triunfalismos nem qualquer propósito de ofender ou afrontar memórias alheias. Mas do mesmo modo que não deve haver vanglória também não deverá haver autocensura e acanhamento dos portugueses. Por isso me pronuncio por Museu dos Descobrimentos. Sei que esse nome suscita reservas e anticorpos na academia, mas ele faz sentido tanto dentro como fora do país, pois é em boa medida pelas grandes viagens marítimas e seu resultado que Portugal é conhecido no mundo.

*Historiador e romancista

*Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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