A direita inexistente

Embora não seja da minha conta ou interesse directo, impressionou-me a preocupação do PSD - melhor, dos dirigentes do PSD ou, para ser exacto, de parte dos dirigentes do PSD - de se demarcar da "direita" neste último Congresso. Como se a direita fosse uma epidemia, uma mazela, contra a qual os bons sociais-democratas tivessem de se vacinar ou apresentar prova de imunidade para que não houvesse dúvidas de que não estavam nem seriam contaminados por semelhante lepra.

O PSD e a direita

Ora, se não me engano, o PSD é um partido em que votam muitos cidadãos que se consideram pessoas de direita: ou porque são conservadores nos valores e costumes, ou porque são pelo mercado em economia, ou porque são patriotas, ou porque não se reconhecem nem no centro nem na esquerda. Como há tempos perguntava o João Marques de Almeida no Observador, "40 anos depois do 25 de Abril, não estaria na altura de o PSD e de o CDS cuidarem dos seus?", estranhando que "os partidos onde votavam pessoas de direita" se pusessem a discutir se eram ou não de direita. Pelos vistos discutem, discutiram e concluíram que não eram, menosprezando grande parte dos eleitores.

Sei bem que a questão da direita e da esquerda, os seus conceitos, conteúdos e definições, não é fácil. E que talvez até não haja esquerda e direita mas muitas esquerdas e muitas direitas (embora, aparentemente, em Portugal, nos partidos, não haja nenhuma). Também há quem diga que já não faz sentido falar-se em direita e esquerda, e que direitas e esquerdas, como lugares geométricos, são coisas ultrapassadas; que fará mais sentido falar em opções e conteúdos ideológicos - nacionalistas, conservadores, liberais, socialistas, comunistas.

Houve até um tempo em que se chegou a dizer que a política não interessava e que a questão do governo e do poder era apenas uma questão de eficácia técnica na resolução dos problemas. Só que a política é que decide quais são os problemas, qual a sua ordem de prioridade, qual o tipo de soluções a adoptar e quem são as pessoas a favor ou contra as quais os problemas se resolvem.

O recomeço pós-Guerra Fria

O que se passa agora é precisamente o inverso: acabado o século XX, o século das ideologias globais ou universais - comunismo, fascismo, democracia -, com a aparente vitória folgada do liberalismo democrático em versão anglo-saxónica, eis que tudo começa e recomeça a mudar. Entre a erupção dos nacionalismos nos Balcãs, o ataque da Al Qaeda aos Estados Unidos, o terrorismo jihadista internacional, a imigração política e económica muçulmana para a Europa, a resistência das nações a Bruxelas e as consequências perversas da globalização, a política voltou, está a voltar, em força.

A esquerda, malferida pelo colapso soviético e pelas reformas pós--maoistas na China, foi arrumando o socialismo na gaveta e concentrando forças na nova utopia da correcção política, com as suas pequenas regras e pequenas minorias; isto é, na procura de uma igualdade e indiferenciação absolutas, em que qualquer reserva ao que é "fora do normal" é interpretada como crime contra a humanidade. Mas a mesma esquerda continua a ignorar a nação e a família e todas as comunidades integradoras e identificadoras do indivíduo, precisamente as que, ficando entre o indivíduo e a humanidade, conseguem estabelecer realisticamente essa relação.

Todas estas questões trouxeram, no seu conjunto, uma reafirmação e uma redescoberta das direitas e da direita. Agora que já não é central a equação socialismo versus capitalismo e que o anticomunismo perdeu o seu objecto (dos partidos comunistas, europeus resta só o PCP), percebe-se que assim seja. A esquerda radical abandonou o socialismo e os operários e concentra esforços em acabar com tudo aquilo que estrutura uma sociedade - a religião, a nação, a identidade cultural, a família - em nome de uma qualquer utopia, talvez de um mundo povoado por anjos sem sexo, esvoaçando livremente em todo o céu e por toda a terra.

As duas direitas

Reactiva, a direita vai-se reestruturando, por oposição, a esta nova esquerda e à sua ofensiva. E fá-lo em duas modalidades ou versões, seguindo diferentes prioridades de valores: a de uma direita conservadora, tradicional, que se mantém nos valores da ética cristã, que é contra o aborto, contra a eutanásia, contra os casamentos de pessoas do mesmo sexo, que defende a economia livre e aberta, a baixa dos impostos, e que é, em princípio, patriota e moderadamente europeísta ou moderadamente eurocéptica; e a de uma direita radical, que não se preocupa muito com as questões da família, da religião e da orientação sexual, e que é até liberal nessas matérias, mas que é economicamente proteccionista e justicialista, activamente eurocéptica e pelo controlo da imigração, sobretudo vinda de países islâmicos.

Estas duas direitas - e outras, aparentadas - estão bem presentes na Europa. Em França, Les Républicains, de Laurent Wauquiez, identificam-se com uma agenda nacional--conservadora, que quer caçar nos terrenos do Front National os franceses zangados com a imigração magrebina. Patriotismo republicano, neogaullista, identitário, eurocéptico quanto baste, valores conservadores e defesa de uma França católica, tradicional: a velha França de Joana d"Arc e Napoleão.

Já Marine Le Pen e o seu Front National têm pouco que ver com esta linha conservadora: são nacionalistas, proteccionistas, inimigos do grande capital e livres em matéria de costumes (o ex-número 2 do Front, Florian Philipot, agora fundador de Les Patriotes, era homossexual assumido e o Front é muito votado entre a comunidade gay). Depois, num "centro" destas direitas, como uma síntese, afirma-se Marion Maréchal Le Pen, que diz querer criar um "espaço em que todas as correntes da direita se possam encontrar e desenvolver".

Donald Trump fez uma OPA bem--sucedida ao GOP, tornando-se líder dos Republicanos e de um eleitorado religioso e conservador que olha mais para o que ele diz do que para o que ele faz. E que também tem entre os seus apoiantes homossexuais assumidos sem que nem ele nem eles pareçam importar-se muito com isso.

Resignação portuguesa

Estas direitas várias vão desde movimentos extremistas e identitários próximos da referência histórica do fascismo até conservadores moderados, defensores das liberdades políticas e económicas. A esquerda e o jornalismo mainstream procuram fazer a amálgama entre todas, por um misto de má-fé e de ignorância, como se fossem todas a mesma coisa. Mas não são.

Em Portugal, pelos vistos, pelo menos quanto aos partidos políticos, podemos estar tranquilos. Não há direitas nem direita. E os eleitores que se afastam da virtude, silenciosamente seguindo nefastas correntes ou desvios direitistas, que se resignem aos representantes disponíveis no mercado, que tenham paciência, porque, de momento, a democracia portuguesa não dispõe de representantes que se coadunem com a sua índole.

Escritor e historiador

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