A dessecularização da Turquia

Desde 1935, na secular República da Turquia fundada por Mustafa Kemal Atatürk, que a Ayasofya era um museu, um património da humanidade e terreno "neutral" em termos religiosos. Por isso, era também um dos símbolos maiores da nova Turquia secular e moderna, que sucedia ao extinto Império Otomano.

Originalmente construída como Basílica de Santa Sofia no século VI (Hagia Sophia em grego), em Constantinopla, durante o Império Bizantino, é naturalmente um edifício que mantém grande simbolismo para a Grécia e a Igreja Ortodoxa.

Sinais dos tempos, agora com Recep Tayyip Erdoğan volta ser uma mesquita, Regressa ao passado do Império Otomano, não só da conquista de Constantinopla em 1453, como dos sultões otomanos que eram também califas, (comandantes dos crentes no Islão), desde o século XVI. É, assim, mais uma provocação política à Grécia e aos valores da União Europeia, à qual é candidata à adesão .

Mas era este mesmo Recep Tayyip Erdoğan que dizia, em 2004 que a União Europeia não podia ser apenas um "clube cristão",. Muitos na União Europeia - e em Portugal -acreditavam piamente nas suas virtudes. Viam nele um democrata-muçulmano que estava a democratizar a Turquia e a torná-la mais livre, plural, multi-étnica e multi-religiosa. Não se riam dessa fantasia, ou não chorem sobre ela que agora já é tarde de mais.

E era Recep Tayyip Erdoğan em 2008 o rosto de uma «Aliança de Civilizações» - juntamente com o Primeiro-Ministro espanhol José Luís Zapatero e o antigo Presidente da República português, Jorge Sampaio, no âmbito de uma iniciativa perfilhada pelas Nações Unidas - a qual seria «uma 'ponte' entre povos, culturas, civilizações e religiões de todo o Planeta.» Também dá hoje vontade de sorrir da ingenuidade - ou, de forma mais crua, da miopia estratégica - dos que acreditaram em Erdoğan e lhe emprestaram a sua credibilidade.

Parece que «Portugal é o país da UE que 'melhor entende' a Turquia» (pelo menos o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia, Ahmet Davutoğlu, dizia isso ao Governo de Passos Coelho e Paulo Portas em 2015...), o que é um feito extraordinário para a diplomacia de um Estado que praticamente nunca teve contactos com o Império Otomano / Turquia.

Assim, talvez exista alguma explicação benigna para esta deriva islamista de Erdoğan, que a nossa diplomacia, usualmente tão 'entendida' na Turquia, consiga ainda revelar. Vamos aguardar.

Todavia, o mais curioso desta história toda é que Recep Tayyip Erdoğan nunca escondeu muito os seu objectivos e quadro mental islamista, como mostra simbolicamente este poema Ziya Gökalp que gostava de citar para os seus apoiantes: «As mesquitas são os nossos quartéis, as cúpulas os nossos capacetes, os minaretes as nossas baionetas e os fiéis os nossos soldados».

Na altura, nos finais dos anos 1990, deu-lhe dissabores políticos e até uma pena de prisão, mais isso era quando a Turquia era ainda um Estado inequivocamente secular (e também autoritário), Hoje só é teoricamente secular, mas quanto a um Estado autoritário continua a sê-lo, provavelmente ainda mais.

Investigador do IPRI-Universidade Nova

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