A bala de prata

No meio do seu segundo mandato como presidente do Brasil, Lula da Silva recusou dar alento à hipótese, por muitos sugerida, de tentar uma mudança constitucional que lhe permitisse um terceiro tempo na chefia do Estado. Recordo-me de ter então dito que não queria proceder como Fernando Henrique Cardoso, que havia aceitado uma reforma da constituição para fazer um segundo mandato.

O gesto de respeito pela letra da lei, por parte de Lula, foi apreciado em todo o mundo, por romper com o vício latino--americano de privilegiar as escolhas de continuidade político-pessoal em detrimento do estrito cumprimento dos normativos constitucionais.
A decisão de Lula de integrar o governo de Dilma Rousseff, com o único objetivo de escapar à instância judicial em que está a ser investigado, colocando-se sob o "foro privilegiado" do Supremo Tribunal Federal, não vai passar a ser uma linha prestigiante no currículo de um homem que, no passado, havia ganho a admiração de muitos milhões de pessoas, pela profunda transformação que protagonizou no Brasil.

É verdade que o modo como setores do Ministério Público brasileiro estavam a destratar o antigo presidente estava longe de ser aceitável, como foi flagrante na forma desrespeitosa como foi levado a prestar declarações, bem como em comentários, politicamente enviesados, feitos sobre o processo.

Porém, ao decidir entrar para o governo do país, instrumentalizando-o abertamente por um interesse pessoal, Lula terá ido longe demais. Terá assim disparado a sua última bala, aquilo a que alguns chamam a "bala de prata". Que também passa a pertencer a Dilma Rousseff, cujo futuro fica agora, mais do que nunca, ligado ao destino de Lula. Pressente-se em tudo isto um grande desespero. E o desespero, na vida como na política, nunca é bom conselheiro.

(Seixas da Costa foi embaixador de Portugal no Brasil entre 2005 e 2009)

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