Defina brexit, Sra. May

Estamos a entrar nas semanas críticas do brexit. Apesar de os dois anos previstos para a retirada formal do Reino Unido só terminarem no final de março de 2019, as próximas quatro a seis semanas definirão finalmente o enquadramento decidido em Londres para negociar com outro detalhe os termos desse acordo, além de revelarem as reais condições de governabilidade do executivo da senhora May.

Na última semana e meia foi cirurgicamente libertado um relatório interno do governo que apontava três cenários inevitáveis de altas penalizações económicas para o Reino Unido, independentemente do quadro alternativo ao mercado único. Tal poderia significar estar ao abrigo das regras aduaneiras do Espaço Económico Europeu, de um acordo parecido ao que foi assinado entre a UE e o Canadá, ou ficar sob o chapéu da OMC. Em qualquer deles o empobrecimento económico britânico seria sempre uma inevitabilidade e balizado entre os 2% e os 8% anuais num horizonte de década e meia. Além disso, no caso da primeira opção, o Reino Unido teria de ficar vinculado não só às quatro liberdades fundamentais da UE como respeitar outras instituições comunitárias e ainda a jurisdição do Tribunal Europeu de Justiça, temas centrais na argumentação daqueles que têm defendido, sem recuos, a saída da UE.

A libertação do relatório teve o efeito de gerar um turbilhão dentro do frágil governo britânico e do instável quadro parlamentar, duas variáveis que vão ditando, desde a primeira hora, o ângulo fundamental do brexit: muito mais do que um roteiro internacional mal assumido para o Reino Unido, o brexit tem sido um fator de demarcação identitária dentro do partido conservador e em todo o espectro político britânico. Neste sentido, é em primeiro lugar um elemento que obriga a uma decisiva definição interna (que coesão política interna? Que união dentro do Reino? Que estabilidade, por exemplo, para o acordo de paz da Irlanda do Norte?) e só depois a um plano compreensível com o exterior (que condições de retirada? Como se fará a transição? Que alternativas existem?). Até agora esses dois desafios foram gritantemente mal abordados e ainda menos bem deslindados. E digo isto com a desilusão de alguém que cresceu a admirar quase tudo o que o Reino Unido foi dando ao mundo, desde a mistura entre inovação e tradição na política, à sua diplomacia, diversidade, oportunidades, humor, música ou literatura.

A desorientação da atual classe política britânica e as suas múltiplas demonstrações de fragilidade são aquilo que mais se tem destacado ao longo deste desgastante processo do brexit.

Devo, contudo, dizer que os seus diplomatas estão muitos furos acima dos políticos. Pude comprovar isso mesmo ao longo desta semana que passou, num roteiro de reuniões sobre o brexit e o pós-brexit em Inglaterra, e que juntou alguns desses mesmos diplomatas com responsabilidades nas negociações e vários protagonistas europeus de setores empresariais, políticos e académicos. Ficou mais uma vez bastante claro para mim que o profissionalismo diplomático não tem sido acompanhado por mínimos de coordenação e autoridade políticas; que não existiu, pelo menos até agora, qualquer criatividade negocial por parte de Londres e que o relógio traz uma pressão extra; que, de forma geral, todos à volta da mesa querem manter os vínculos essenciais para que os danos da saída tenham o menor impacto possível; que os EUA mal são mencionados como um elemento influenciador do processo ou compensatório da saída; que as condições para uma bilateralidade funcional e proveitosa com grandes potências comerciais como a China e a Índia são ainda muito difusas; e que há uma margem de influência ainda a desempenhar pelo setor privado sobre o rumo das negociações.

No meio deste contexto, a semana que agora começa terá nova ronda negocial em Bruxelas, num jogo de demonstração de uma singular coesão entre os 27 (sou cético sobre a sua veracidade) e de inconsistência e instabilidade do lado britânico. Simultaneamente, em Londres, Theresa May prepara-se para defender um plano mais próximo da sensibilidade de Philip Hammond do que de Boris Johnson ou Liam Fox, capaz de assegurar uma moldura de entendimentos práticos sobre os méritos de uma futura integração numa união aduaneira que controle os danos comerciais com a UE. Outro ponto relevante será a defesa de um período de transição depois de março de 2019, capaz de acomodar as incertezas e angústias do tecido empresarial britânico (e também dos Estados membros) decorrentes das alterações legais e regulatórias previstas no acordo. Este ponto é tão ou mais sensível do que o anterior, dado que isso não clarificaria para muitos brexiteers que as regras fundamentais da UE sobre liberdades de circulação deixassem de vigorar, aspeto quase sagrado para quem quer sair.

A maioria dos 11 membros do governo que pertencem ao núcleo duro do brexit são, à partida, favoráveis à proposta da primeira-ministra, mas é preciso que a mesma seja exequível em Bruxelas e, ainda, que encontre adesão no imprevisível puzzle parlamentar em que se tornou a Câmara dos Comuns. Ou seja, parece haver alguma disponibilidade para um soft brexit mais conciliatório, mas nem isso pode ser suficiente para encaixar na estratégia definida por Michel Barnier, nem acolher apoio numa maioria de deputados inter-partidária. O brexit continua a ser, acima de tudo, um enorme dilema identitário dentro do partido conservador e, como se tem visto, também entre os trabalhistas. Quem disse que a Europa não era central na política britânica nunca quis admitir o óbvio.

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