A grande arma europeia

Vamos entrar numa semana fundamental para as relações transatlânticas. Depois de a investida na Síria ter recuperado o triângulo euro-atlântico militarmente mais capaz (EUA, Reino Unido, França) - o que não quer dizer que tenham mudado alguma coisa no terreno -, os últimos dias viram a Alemanha distanciar-se das reformas propostas por Macron para a zona euro, ao mesmo tempo que o presidente francês fez passar a ideia numa entrevista televisiva de que estava a influenciar decisões em Washington, nomeadamente a de não retirar o contingente da Síria. Destas posições resultam alguns aspetos a ter em conta nas estratégias de cada um.

Em primeiro lugar, a confirmação de que a administração Trump não tem qualquer estratégia para a Síria, a não ser a de publicamente ir condenando ataques químicos, dar uma ou outra resposta musculada e permanecer irredutível contra o acordo assinado por Obama e pela UE com o Irão, com vista a monitorizarem o seu programa nuclear a troco do alívio das sanções. Nada do que resulta do ataque americano à Síria define qualquer estratégia para o conflito. Quando muito, desvia a atenção das investigações que vão cercando o team Trump.

Em segundo lugar, se o Reino Unido revelou fidelidade à tradição de acompanhar as decisões militares de Washington, dando à senhora May um reforço de autoridade no governo britânico vital à condução dos equilíbrios que ali precisa de fazer sobre o brexit, a França de Macron tem vindo a tentar aproveitar o limbo geopolítico de Londres para ocupar o seu espaço na relação com Washington. Não é uma ambição de seguidismo, e não passará por ser acrítica das iniciativas que Trump vier a tomar, procura sim dizer a Washington que no quadro europeu nem o Reino Unido nem a Alemanha estão em condições de influenciar, nos próximos anos, a segurança continental como Paris.

Por um lado, porque os franceses estão de pedra e cal na génese da cooperação reforçada na defesa europeia e na vanguarda do debate económico do euro, ou seja, estão numa posição de influência que Londres oficialmente recusou com o brexit. O apoio de Macron ao ataque americano na Síria serviu, igualmente, para Paris dizer a Washington que qualquer reforço da defesa continental, como a Iniciativa de Intervenção Europeia, não explorará nenhuma divisão transatlântica nem será feito à custa do esvaziamento da NATO. Mesmo não sendo esta importante para Trump, é-o para a maioria dos republicanos e democratas.

Por outro lado, porque a Alemanha continua mestre da dialética em segurança internacional, preferindo a palavra de apoio ao compromisso militar efetivo, o que não oferece nenhuma garantia a Washington ou a qualquer país do centro e leste europeu a braços com a ameaça russa. O facto de Merkel ter nesta semana tornado públicas as suas dúvidas sobre a ambição de Paris para as reformas do euro também sinaliza à Casa Branca que a Alemanha não tem o mesmo compromisso para robustecer a moeda única antes da próxima crise. Aliás, por cada manifestação alemã de descrença com o roteiro Macron surge uma pseudo terceira via encabeçada pelo primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, com vista a levar vários países do Norte atrás da inflexibilidade alemã sem, no entanto, expor Berlim a essa iniciativa.

Para Trump, isto é importante, pois na sua habitual lógica de negociação (vencedor/perdedor), todas as brechas europeias são dignas de intromissão. Um presidente americano que felicita o brexit e visita os nacionalistas polacos antes de ir a Berlim não quer a coesão europeia nem uma integração que previna novas crises. É neste quadro que Macron e Merkel vão até à Casa Branca, nesta semana que começa, com dois dias de intervalo.

Mas, ao contrário do que a semana da ressaca à intervenção na Síria parecia supor, não é o plano da segurança transatlântica que mais poderá dominar as reuniões em Washington. Na minha leitura, o comércio internacional será o principal tópico da agenda, numa fase de ameaças sobre tarifas às importações nos EUA e contrarrespostas em Pequim e Bruxelas, numa complexa nuvem de argumentos estridentes que baralham os reais efeitos nas respetivas economias. No entanto, existem dois bons exemplos recentes que mostram a fragilidade do carácter negocial de Trump e ilustram os méritos da UE para moldar a economia internacional. Em ambos, Paris e Berlim estão alinhados e é preciso que assim se mantenham.

Um deles passou pelo recuo de Trump ao ver o Tratado Transpacífico assinado por todos os países que recusaram ficar parados depois desta administração se ter desvinculado do acordo negociado por Obama. O sinal que Trump deu foi de equacionar reentrar, o que prova quão ilusória é a sua força negocial. O outro deu-se com o impulso na agenda comercial da Comissão Europeia que, sob a batuta da senhora Malmstrom, deu nesta semana importantes passos nos acordos de livre comércio tão malfadados por Trump. Bruxelas seguiu em frente depois de falhado o TTIP e assinou nesta semana que passou os maiores acordos comerciais de sempre com o Japão e Singapura, além de ter realizado nova ronda negocial com a Índia, outra com a China para um acordo de investimento, outra ainda com o México para melhorar o existente, tendo no ano passado fechado com o Canadá e mantendo no carril certo um outro com o Mercosul. É expondo o isolamento e as perdas americanas neste roteiro de acordos comerciais que se forçará Trump a ceder. Ainda vamos ver a administração americana assumir que o TTIP é aquilo que a América precisa.

A política comercial europeia é a grande arma geopolítica da União no atual contexto transatlântico. Macron e Merkel, não se desalinhem aqui, por favor.

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