Prova dos nove...

Era, há muitos, muitos anos, uma cantilena infantil apropriada a descobrir os mistérios dos números. Matrículas de automóveis e aniversários, por exemplo. Ou então, em vésperas de Ano Novo, tirava-se a prova dos nove. 2017? Dois mais um, três, mais sete, dez, noves fora um: é o primeiro, ganha tudo! Em 2016, noves fora nada: perde tudo! Em 2019, noves fora três: é a conta que Deus fez. Ou 2014, noves fora sete: quem não pode não promete! Batia sempre certo. Quase...

A prova dos nove, para Portugal de 2017, começa agora, hoje mesmo, primeiro de Janeiro. O ano vai ser especialmente difícil. Aliás, os clichés mais gastos são todos verdadeiros: "incerteza", "ameaça", "perigos" e "riscos". Centenas de pessoas perguntadas pelos jornais e pelas televisões, optimistas e pessimistas, começam e concluem os seus testemunhos com as mesmas expressões.

Será Portugal capaz de combater a crise instalada e aparentemente adormecida? Poderão os dirigentes políticos e económicos encontrar soluções para os nós que parecem cegos? Quem observa e quem vê gosta de se entreter a prever a duração e a habilidade. É um passatempo divertido, mas inútil. Por maior que seja o jeito e a esperteza, enquanto não houver investimento e crescimento, tudo se manterá frágil e perigoso.

O pior de tudo é talvez o endividamento, o que vem de trás e o que não cessa de aumentar. É seguramente a maior chaga de que o país sofre. Apesar da tendência dominante para subestimar os efeitos do endividamento, a verdade é que este é tão nefasto quanto a falta de liberdade, o caos nas ruas, o desemprego ou a miséria. Com a agravante de ter feito de Portugal um pária dependente. Ainda hoje, é lamentável ver como grande parte dos dirigentes e até mesmo da população não consideram a dívida realidade ameaçadora. Muitos portugueses têm uma atitude como a do fidalgo arruinado, com gostos caros, poucos recursos e a impressão de que tudo lhe é devido. Muitos acham mesmo que não se deve pagar a dívida e que tal atitude é virtude soberana.

A verdadeira prova dos nove é a do investimento e do crescimento económico. Sem um e outro, não haverá bem-estar, nem equidade, nem menor desigualdade, nem mais justiça, nem melhor educação e mais saúde. A prova dos nove não será a dos subsídios, dos aumentos de pensões, de férias e feriados, da redução de horas de trabalho, do aumento de salários mínimos e médios, dos benefícios de saúde e de educação ou dos abonos sociais de toda a espécie. Se tudo isso, que é excelente, não resultar do crescimento económico, do investimento, do aumento da competitividade, da abertura de novas oportunidades comerciais e das melhorias na organização do trabalho, então tudo isso será demagogia de pouca duração. Será mesmo a antecâmara do desastre. Essa é a prova dos nove: o investimento, que gera crescimento, que produz desenvolvimento e que está na origem do progresso social. A prova dos nove deste governo não é a da sua duração nem a da solidez do seu apoio parlamentar. Não é difícil obter sustentação enquanto os três perceberem que os que caírem morrem. A prova também não é a dos resultados das múltiplas negociações e dos numerosos compromissos que, todas as semanas, o governo tem de realizar com os partidos da esquerda parlamentar. É fácil negociar quando todos têm a ganhar e todos receiam o adversário. É fácil enquanto se pode assinar cheques. A verdadeira prova dos nove não será a do aumento da despesa, mas sim a da diminuição do endividamento.

A superstição da numerologia é favorável. 2017? Dois mais um, três, mais sete, dez, noves fora um: é o primeiro, ganha tudo! Se houver investimento... Se não, noves fora nada!

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