Ventura, o pato-bravo

Há um motivo para ainda não ter escrito sobre este assunto. Falar de André Ventura, ainda que seja para o criticar, é dar-lhe o que ele quer: um palco que ele não merece. Por que decidi fazê-lo agora? Porque é preciso desconstruir o que este pato-bravo está a tentar fazer. E porque, em política, não pode valer tudo. Ou, pelo menos, não devia.

Vamos por partes. André Ventura decidiu que ia ser uma espécie de Donald Trump da política local. Se resultou nos EUA, por que não em Loures? Qual é a melhor forma de chamar a atenção? De virar os holofotes para mim? Como é que se inverte uma eleição perdida? Dizem-se umas coisas polémicas, ainda que sem a menor consistência, fala-se do que não se conhece e, sobretudo, tenta capitalizar-se uma parte do eleitorado, que não é de esquerda nem de direita, antes pelo contrário. André Ventura sabe que há um público que tem como lema de vida dizer mal de tudo e de todos, falar do que não sabe e comentar a sua própria ignorância. E sabe que as redes sociais vieram potenciar ao expoente máximo da loucura esta... loucura.

André Ventura, esse vulto da televisão portuguesa, que ganhou protagonismo a dizer umas alarvidades sobre futebol (oh, como lamento que ele seja do Benfica!), quis usar o mesmo estratagema na política. E entrou com estrondo. A primeira entrevista que dá a um jornal estava pejada de frases polémicas. Não eram mais do que isso, polémicas, mas cumpriam o objetivo: fazer-se notar. Na substância, André Ventura não aponta uma ideia, uma política, zero. Nuns casos diz o óbvio, noutros diz coisa nenhuma.

Mas a missão estava cumprida. Se alguém mais distraído com o futebol nunca tinha ouvido falar nele, depois dessa primeira entrevista já toda a gente sabe quem é o Ventura. A estratégia correu tão bem que ele voltou à carga. Desta vez, numa entrevista a uma televisão, para defender a pena de morte e a prisão perpétua. Mais um chorrilho de frases polémicas, mais umas centenas de posts nas redes sociais e... he did it again.

Muita gente tem perguntado como é que o PSD pode manter o apoio político a André Ventura. Eu vou mais atrás: por que é que o PSD escolheu André Ventura para ser candidato à CM de Loures? E, já agora, por que é que o CDS decidiu apoiá-lo? A resposta é óbvia: os dois partidos quiseram capitalizar a persona que André Ventura criou nos últimos anos na televisão, a fazer comentário desportivo. O que diz muito sobre os partidos políticos de hoje. Mais do que as ideias, a capacidade ou o sentido de serviço público, os candidatos são escolhidos pela suposta notoriedade que têm. Se forem superstars, pode ser que conquistem mais uma câmara para o partido.

Assunção Cristas percebeu a tempo que André Ventura era um tiro que saía pela cu- latra. Passos Coelho percebeu o mesmo, mas... recuar? Nunca. Se é para cair, cai-se com estrondo.

E, assim, André Ventura, que gosta de exibir o seu doutoramento em York e a média de 18 valores com que acabou o curso de Direito, continua a espalhar pela imprensa o seu ego, que é maior do que o concelho de Loures. Usando sempre a estratégia das bandas que tocam ao vivo e que, quando querem "acordar" a audiência, gritam "façam barulho!!!". Um pato-bravo da política, como já vimos tantos, mas que não está, necessariamente, condenado ao insucesso.

É que, por cá, como lá fora, há um eleitorado que gosta desta gente "que fala sem papas na língua". Que dá entrevistas políticas com o mesmo conteúdo de uma conversa de café, enquanto se lê um tabloide e se apreciam os seios voluptuosos que estão em grande destaque nas últimas páginas. Um ecossistema perfeito para os patos-bravos da política crescerem e desenvolverem-se. No dia 1 de outubro é consigo. Quer um presidente de câmara? Ou mais um pato-bravo?