O PSD e "o menor de dois males"

Na mesa do costume, à hora do costume, o senhor Manuel, da Courense, continuava a trazer comida para dois como se tivessem vindo 10 para almoçar. Tema de conversa? A inédita segunda volta das diretas do PSD, a fazer lembrar uma não menos inédita segunda volta das presidenciais de 1986, que colocou frente a frente Mário Soares e Freitas do Amaral, depois de deixar pelo caminho Salgado Zenha e Maria de Lurdes Pintassilgo. Num exercício que, para muitos, pode parecer inútil, eu e o meu companheiro de todos os dias ao almoço procurávamos semelhanças, diferenças e subtilezas políticas nos dois atos eleitorais, partindo sempre do princípio de que a história tem sempre alguma coisa para nos ensinar e nos enquadrar.

Há 34 anos - a primeira votação foi a 26 de janeiro de 1986 -, Freitas do Amaral venceu a primeira volta das presidenciais com 46,3% dos votos, mais de 20 pontos à frente de Mário Soares, que não foi além dos 25,4%. Não foi propriamente por uma unha negra que não arrumou logo a eleição à primeira, nem Freitas alguma vez imaginou que o conseguiria fazer, mas a distância a que deixou Soares e os quatro pontos que lhe faltaram para uma maioria absoluta eram motivos de sobra para o candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS estar mais do que confiante na eleição para a Presidência da República.

A história desta eleição, porém, haveria de tomar outro rumo. Um debate de que o centro-direita se arrependerá até hoje acabou por se revelar mais prejudicial para o candidato que estava em vantagem - Freitas do Amaral - do que para Mário Soares. Mas foi, sobretudo, a "grande flexibilidade tática" que Soares sempre reconheceu a Álvaro Cunhal que acabaria por virar definitivamente esta eleição. "Vamos ter de engolir um sapo. Se for preciso, tapem a cara (de Soares) com uma mão e votem com a outra", pediu Cunhal aos comunistas, assumindo que era preciso escolher "o menor de dois males". Mário Soares acabou por ser eleito à segunda volta, com 51,18% dos votos, enquanto Freitas do Amaral, que até conseguiu aumentar a votação, não foi além dos 48,8%.

Só mesmo por graça é que se pode comparar as presidenciais de 86 com as diretas do PSD de 2020. Não só são duas eleições de natureza completamente diferente, em épocas políticas completamente distintas, como Rui Rio não é Freitas do Amaral, Luís Montenegro não é Mário Soares e Miguel Pinto Luz está longe de ser Álvaro Cunhal ou de representar algo semelhante. Mas há, pelo menos, duas lições a tirar: a primeira é a de que o candidato mais votado na primeira volta pode não ser, necessariamente, o candidato vencedor. E a segunda é a de que, em política, o menor de dois males não resulta necessariamente num bem maior.

A decisão que os militantes do PSD tem de tomar no próximo sábado, é tudo menos fácil. De um lado, Rui Rio, o homem que, há dois anos, chegou com uma vassoura numa mão e com o centro na outra. Com a mão esquerda prometia varrer o partido do caciquismo. Com a direita, recentrá-lo e devolver ao PSD o estatuto de partido catch all, capaz de voltar a vencer eleições sozinho.

Ora, nem uma coisa nem outra aconteceu. Rio deixou-se embrenhar na sua obsessão de guerrilha permanente, do homem que não tem medo de ninguém, que só faz o que quer, quando quer e como quer. Os sinais que deu para unir o partido não passaram disso mesmo, de sinais. E cometeu vários erros - frequentemente desvalorizados - de casting. Rodeou-se de muita gente fraca politicamente, outros sem qualquer experiência política e, outros ainda com os telhados de vidro que Rio tanta critica nos adversários.

A decisão que os militantes do PSD tem de tomar no próximo sábado, é tudo menos fácil

É justo reconhecer que Rio enfrentou, nos últimos dois anos, uma oposição interna feroz, mas também seria do mais elementar bom senso que o líder do PSD pusesse a mão na consciência e reconhecesse que, por diversas vezes, fez mais oposição para dentro do partido do que ao Governo e atiçou esses críticos, numa postura pouco própria de um presidente magnânimo.

Todos estes fatores contribuíram para que os dois últimos anos no PSD tenham sido praticamente perdidos. O recentramento prometido nem a meio caminho ficou, a mensagem política foi muitas vezes equívoca e os resultados eleitorais - primeiro das Europeias, depois das Legislativas -, são a prova disso mesmo. Se é verdade que qualquer líder do PSD nas atuais circunstâncias teria muita dificuldade em vencer estes dois atos eleitorais, não é menos verdade que, para um líder que se gaba de ser mais popular fora do partido do que dentro, os resultados ficaram claramente aquém.

Do outro lado, os militantes têm a opção Luís Montenegro, que carrega - com orgulho - a herança política de Pedro Passos Coelho. Uma herança que António Costa conseguiu tornar tóxica para o eleitorado, mas da qual Montenegro nunca descolou nos últimos dois anos. O principal rosto da oposição a Rui Rio manteve viva, durante dois anos, a azia que os passistas ainda sentem por terem sido afastados do poder através de um ato democrático.

Ao contrário de Rui Rio, Luís Montenegro é mais conhecido dentro do partido do que fora e, para consumo interno, o discurso ressabiado do passismo pode até ainda conquistar muitos adeptos. Mas, claramente, já não cola num eleitorado que aprendeu a gostar da geringonça e está longe de a odiar tanto quanto os passistas a odeiam. E esse pode ser um dos melhores seguros de vida política para António Costa: Luís Montenegro corre o risco de ser o cimento de que a esquerda precisa para suportar o governo do Partido Socialista.

Qual é, então, o menor dos dois males? É o que os militantes do PSD vão ter de decidir. Na certeza, porém, de que os próximos dois anos para o partido não vão ser mais fáceis do que os seis últimos. Sobretudo se o próximo líder - seja ele Rui Rio ou Luís Montenegro - não for capaz de construir uma alternativa política e comunicá-la de forma eficaz ao eleitorado. Caso contrário, a única forma de parar esta trituradora de líderes no PSD é esperar por uma escorregadela do próprio António Costa ou por uma crise que obrigue o governo a tomar medidas impopulares e a esquerda a rasgar as vestes. Até lá, a escolha no PSD será sempre entre o menor de dois males.

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