Veio o lagostim e comeu o peixe, veio a cegonha e comeu o lagostim

Uma pessoa vai na autoestrada e lá estão elas ao fundo, ao alto, a voar naquela dança elegante que parece rápida e lenta ao mesmo tempo. São às dezenas, mais à frente penso que são às centenas, e talvez estejam a acompanhar as crias nos primeiros voos. São as cegonhas-brancas, a encher os céus da primavera no Baixo Mondego, sobrevoando os arrozais onde se alimentam.

No Alentejo, dias antes, tinha-as visto ainda concentradas nos ninhos. Talvez as crias ainda estivessem aconchegadas no quente da mãe, naqueles cestos intrincados que enfeitam - às dezenas, às centenas - os postes de alta tensão. Via-se uma ou outra a voar, provavelmente machos em busca de alimentos.

Tão bonito tudo isto, não é? Esta é provavelmente uma das aves mais estudadas, a população e suas migrações estão contabilizadas. E dizem-me que muitas deixaram de migrar até África e se fixaram nas nossas terras. Porquê?

Li vários estudos e concluí, talvez apressadamente e sem qualquer preparação científica - perdoem-me os biólogos se escrever disparate -, que há pelo menos duas razões: os aterros sanitários a céu aberto e os lagostins vermelhos. Duas razões paradoxais, se pensarmos que um aterro a céu aberto, com os seus lixos de vísceras de animais saídas dos matadouros e petiscos afins, é uma cobiçadíssima fonte de alimentação, e que a praga dos lagostins vermelhos tem, quem o diria, uma utilidade. Foi bastante alarmante a invasão deste lagostim-vermelho-da-luisiana, o Procambarus clarkii, na Península Ibérica, dada a rapidíssima proliferação. Rapidamente tomaram conta dos ecossistemas onde se instalaram e deram cabo de outras espécies, quer os seus primos lagostins de outras origens quer peixes e plantas. Até que as cegonhas os descobriram, mais nutritivos do que as minhocas e outros animaizinhos. Desconheço se as cegonhas têm apetite suficiente para equilibrar as coisas, mas imagino-as a picar certeiras até uma albufeira, uma charca, um qualquer ponto com água doce, e aí apanhar sem compaixão os crustáceos desprevenidos e incapazes de voar.

Segundo o recenseamento feito em 2014, foram identificados 11 690 ninhos ocupados de cegonha-branca, a Ciconia ciconia, cerca de nove mil dos quais nos distritos de Beja, Évora, Setúbal, Santarém e Portalegre. Sobre os lagostins-vermelhos há de haver contabilidades, mas não as encontrei, só estudos e preocupações. Então se as cegonhas-brancas, aqueles belos animais que tanto alimentaram - metaforicamente, que também é alimento e do mais digno e relevante - a imaginação e mesmo os mitos humanos, ajudam a combater a praga, uma pessoa fica a gostar ainda mais da ciconia ciconia.

São assim os ciclos da natureza. Espécies que surgem inesperadamente, por acaso ou erro humano, e desatam a fazer estragos, e depois outras que vêm a seguir e, mmm, se deliciam com elas, sequências de cadeias alimentares que por vezes estabelecem equilíbrios, outras vezes, desgraçadamente, causam catástrofes.

Podia fazer aqui analogias e a primeira que me ocorre está bem à vista pelas cidades portuguesas. De como a chegada massiva de turistas tem sido uma excelente ajuda para sair da famosíssima crise, e de como transporta e instala uma catrefa de efeitos secundários altamente penalizadores. Para quem quer simplesmente morar em Lisboa ou no Porto - ou mesmo nos arredores, desde logo.

Morei em Alfama quando ainda não era moda, vá lá, quando começava a ser moda. Já não era muito simpático sair de casa de manhãzinha e deparar com um grupo de japoneses fotografando os autóctones (incluindo-me e aos meus filhos de bibe e mochila). Mas ainda assim assisti a belas discussões de janela para janela, com linguagem vernácula que aliás assentava muito bem à paisagem humana, e depois até estive envolvida nas marchas populares e nas disputas bairristas. Era simpático e desconfortável, ao mesmo tempo, saber que todos os vizinhos sabiam (quase) tudo da minha vida e que me ajudavam no que fosse preciso. Mas dificilmente imagino franceses, brasileiros, chineses, a desfilar na Avenida da Liberdade ou a assar sardinhas nas travessas e becos. E agora?

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