O que LA pode aprender com Portugal

Na segunda maior cidade dos EUA, a distância entre lugares não se mede em quilómetros ou milhas. Mede-se em tempo que se vai ficar parado no trânsito a tentar lá chegar. O problema do congestionamento é tão grave que faz parte dos perfis em aplicações de encontros: "Se moras do outro lado da 405, desliza para a esquerda." Fazer os dez quilómetros que separam Hollywood do vale de São Fernando demora cerca de uma hora em várias alturas do dia. Como a rede de metro não é grande opção dada a extensão geográfica de Los Angeles (LA), toda a gente é obrigada a andar de carro, o que gera um segundo problema: falta constante de estacionamento e preços muito elevados em qualquer parque ou lugar de parquímetro. Aliás, calcula-se que 30% do trânsito local seja gerado por pessoas à procura de um lugar para largar o carro. É uma dor de cabeça que tem impacto nas decisões do dia-a-dia: "O quê, a tua festa é em Santa Monica às sete da tarde? Não estás boa da cabeça. Depois combinamos um café."

Há poucas cidades que possam beneficiar tanto de um banho de inovação como LA, e é por isso que a câmara embarcou numa experiência de internet das coisas (IoT) em dezembro, através do consórcio I3, e está interessada nas iniciativas implementadas em Cascais.

O exemplo da cidade portuguesa foi mostrado na feira CES em Las Vegas e encaixa naquilo que LA quer fazer com pilotos que vão testar várias tecnologias. Por exemplo, parquímetros inteligentes em que uma app informa o condutor da disponibilidade de lugares e semáforos conectados que aceleram ou atrasam a luz verde para melhorar o ritmo do trânsito.

Em relação a Cascais, os projetos em que LA está interessada são o de mobilidade e o de pontos dados aos cidadãos para trocar por experiências.

O primeiro caso é o mais evidente. O MobiCascais é um serviço que congrega numa única plataforma todas as opções de mobilidade dos habitantes de Cascais, desde comboio ao aluguer de bicicletas, reserva de estacionamento e carregadores elétricos. Em LA, os passes mensais ultrapassam os cem dólares e dão acesso a transportes que não cobrem imensas partes da cidade - por exemplo, é difícil ir de transportes públicos até Beverly Hills. Não é por acaso que os serviços de boleias Uber e Lyft se tornaram tão essenciais.

Por outro lado, há muitos parques de estacionamento que oferecem os primeiros 90 ou 120 minutos de forma gratuita, mas é difícil encontrar informação atualizada sobre onde se localizam e se ainda estão disponíveis. Esta dificuldade justifica o surgimento de aplicações de estacionamento como a SpotHero, que permitem reservar um lugar com antecedência. O problema é que por vezes os preços cobrados são mais elevados do que simplesmente chegar e entrar, ou então os funcionários do parque não reconhecem a reserva e o condutor fica sem opções em zonas onde é quase impossível encontrar alternativa. Um sistema gerido centralmente pela cidade como o MobiCascais, onde todos os intervenientes participam, resolveria, senão todos, pelo menos parte destes problemas - introduzindo ainda a digitalização das compras de bilhetes e passes.

O City Points também serve a LA como uma luva, em especial nas questões de reciclagem e de voluntariado, ambas muito necessárias. A ideia será incentivar os cidadãos a comportamentos sustentáveis e altruístas, numa cidade que tem uma das maiores concentrações de sem-abrigo do mundo. LA fervilha com museus, festivais e eventos culturais e os pontos recebidos no sistema seriam trocados por entradas gratuitas nestas atrações.

Os dois projetos poderão ser incluídos no I3, o sistema de integração IoT que tentará levar Los Angeles para o patamar de cidade inteligente.

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