O Jesus americano

A voz gutural de Christopher Glyn desce sobre os mortais recitando o pai-nosso, com luzes fantásticas a revelar as escrituras. A Bíblia em papel transforma-se num pequeno aparelho que faz lembrar o meu antigo gravador de minicassetes, e uma voz off anuncia, triunfante: é a Wonder Bible. O anúncio televisivo explica que esta Bíblia Maravilha não está à venda nas lojas e só através deste número de telefone se pode adquiri-la. Os 39,90 dólares são o preço a pagar por um pedaço de eletrónica vindo da China, talvez com circuitos desenhados nos anos 1980, que custou apenas alguns cêntimos a produzir. Lá dentro estão o Antigo e o Novo Testamentos na versão protestante e os botões permitem procurar o versículo apropriado a cada ocasião, como mostra o anúncio. Por exemplo, quando um casal está a discutir cheio de contas para pagar, o marido seleciona João 14:1: "Não fique perturbado o vosso coração, acreditai em Deus e acreditai também em mim" e a mulher imediatamente se tranquiliza e sorri. Um homem de fato leva a Wonder Bible no carro e inspira-se, entre os assentos de pele e o tablier de luxo, com a Carta aos Filipenses 4:13: "Tudo posso n"Aquele que me fortalece."

O anúncio televisivo que corre por estes dias encarna um espírito natalício muito próprio, inventado em partes da América. A versão moderna de um Jesus que nunca existiu na doutrina original. Um Jesus branco, de olhos azuis e cabelos dourados, conservador nos costumes, defensor do direito a comprar armas, pouco amigo de gays e refugiados, protetor dos ricos e do capitalismo, inimigo de qualquer forma de contraceção. As parábolas, as cartas, os versículos e os ensinamentos são escolhidos a dedo para encaixar nesta versão de cristianismo que tem muito pouco de Cristo - pelo menos daquele que nos ensinaram no catecismo, o que expulsava os vendilhões do templo e defendia a honra das mulheres. Parte dos conservadores americanos apoderou-se da religião e manipulou-a para defender os seus preconceitos naturais, crendo cegamente que a Santa Trindade está do seu lado; por consequência, quem está do outro lado é inimigo de Cristo e poderá até adorar Satanás em segredo.

Esta distorção da realidade explica a reação do candidato republicano ao Senado pelo Alabama, Roy Moore, quando foi derrotado pelo democrata Doug Jones. Moore recusou-se a conceder a vitória ao oponente. Os seus advogados tentaram impedir a certificação dos resultados pelo governo do Alabama, que, por sinal, é inteiramente constituído por republicanos. E a justificação foi esta: Moore não acredita que tantos negros tenham votado contra ele quando Jesus estava do seu lado. A sua equipa argumenta que Jesus não poderá ter deixado um democrata ganhar.

É a mesma linha de raciocínio que permite aos evangélicos defender Donald Trump com unhas e dentes, apesar de a sua conduta se opor, em teoria, ao que eles defendem. Dizem que Deus (nunca os russos!) interveio nas eleições norte-americanas para eleger Trump com um objetivo específico: nomear juízes para o Supremo que ajudem a reverter a legalização do aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e outras ofensas inventadas de que Jesus nunca falou em nenhuma versão da Bíblia. Suspeito, muitas vezes, de que alguns cristãos conservadores não estudaram a Bíblia a fundo. Recordo a jovem que me disse que os negros são naturalmente inferiores e não gostam de trabalhar, pelo que reza muito por eles. Recordo o escândalo que foi quando Michelle Obama apareceu com um vestido sem mangas no retrato oficial como primeira-dama, porque mostrar os braços ofende a moral e os bons costumes de uma forma que os divórcios e as amantes de Donald Trump nunca poderiam. Dizer que Jesus foi um refugiado de pele escura que pregava a igualdade entre todos ofende os que adoram o Jesus americano. Lembrar que Jesus pedia solidariedade para com os pobres e doentes, a simplicidade do culto e o despojar dos bens materiais quase gera uma apoplexia. Referir que o Deus do Novo Testamento tende a ser misericordioso e Jesus deu a outra face é quase sacrilégio.

As discussões ridículas sobre os copos natalícios do Starbucks e esta ideia de que já se pode dizer "Feliz Natal" outra vez impedem uma troca de argumentos com substância. O facto de muitos acharem que está a ser travada uma guerra contra os cristãos na América, onde reina a liberdade de culto e as igrejas estão cheias todos os domingos, é de deixar uma pessoa perplexa. O problema começa aqui: a história de Jesus é uma de rebeldia contra os poderes religiosos estabelecidos, a de uma narrativa nova e radical, com desdém pelo materialismo e uma mensagem de amor ao próximo. Agarrar nele e transformá-lo num símbolo de conservadorismo ganancioso é a verdadeira heresia.

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