O dono da bola

"É uma charada!", gritava um dos painelistas, "nós nem gostamos de futebol e calha-nos o Campeonato do Mundo? Portugal tenho a certeza de que gostaria de o receber, ou qualquer outro país da tanga europeu!" A referência gerou sensação na audiência, porque a expressão que o comediante Hari Kondabolu usou no programa de rádio Wait Wait Don"t Tell Me, da NPR, foi crappy. "Ah, sim, vocês todos adoravam Portugal antes de virem para aqui", refutou Kondabolu, com sarcasmo, perante a reação de quem assistia ao vivo.

Levantei o som do rádio, meio caminho entre o divertida e o assanhada, porque achei notável que a primeira coisa que veio à cabeça de um comediante que não gosta de futebol foi associar o desporto com Portugal. A segunda foi que Portugal é um país irrelevante, um qualquer cochicho metido na Europa, esse continente difuso no imaginário dos americanos.

O programa passou no sábado, um dia depois do hat trick monumental do Cristiano Ronaldo que pôs toda a gente de queixo no chão, e a referência era à atribuição da organização do Campeonato do Mundo de 2026 na América do Norte - Estados Unidos, México e Canadá. Kondabolu tem uma certa razão, porque aqui nem se chama futebol ao futebol, chama-se soccer. Não se fala da Major League Soccer horas a fio nos programas desportivos e o termo é muitas vezes usado de forma depreciativa para descrever as mães que gritam pelos filhos nos treinos da escola. São as soccer moms, que levam os miúdos a jogar um desporto secundário num país onde é o futebol americano, o basquetebol e o basebol que arrastam multidões. A importância do nosso futebol é tão pequena que a equipa masculina nem se qualificou para o Mundial e são as mulheres que marcam a diferença nas competições - já foram campeãs do mundo três vezes.

Mas a superação de Ronaldo neste jogo inaugural fez eco por aqui, e é a cara dele que põe Portugal no radar de quem nunca pôs os pés no nosso país. Dizem-me que estiveram em Espanha e não houve tempo para ir a Portugal, mas depois se arrependeram porque ficaram com curiosidade de conhecer o país do Ronaldo. Alguns sabem umas palavras, o que - apesar do sotaque brasileiro - é algo que não me acontecia há apenas alguns anos.

Da América a Portugal vai um oceano de distância, e há poucas coisas tão comoventes como assistir aqui aos jogos da seleção num bar português, com gente a colecionar garrafas de Super Bock nas mesas enquanto espera por uma dose de bifanas e miúdos que não falam português vestidos com as cores nacionais. Nunca foi só futebol e agora é muito mais do que isso.

O português, quando emigra, assimila-se melhor na nova cultura do que outros povos. Assimila-se tão bem que arrisca a invisibilidade, algo que as comunidades lusodescendentes na Califórnia trabalham arduamente para evitar. O futebol é uma linguagem muda que usamos para comunicar esse traço comum, essa portugalidade que nunca se sabe descrever bem até que se começa a sentir falta dela. Os mais velhos, os que emigraram há muitos anos, misturam o português com o inglês quando falam. Os mais novos, nascidos em solo americano, conseguem perceber o que se diz mas não se atrevem a falar uma língua que é difícil de aprender quando se cresce fora do retângulo lusitano. Respondem em inglês, enrolados na bandeira, exibindo os sobrenomes portugueses, envaidecidos por uma herança cultural que antes se passava em sussurros e agora se grita. "Sou do país do Ronaldo", como se pudéssemos reclamar para nós as suas qualidades, como se as recebêssemos por osmose.

Talvez o imigrante português fantasie que partilha com o capitão essa vontade louca de superação, os nervos de aço, a resiliência perante a adversidade, o espírito de sacrifício em busca de algo maior. Talvez partilhe mesmo.

Este orgulho vem embrulhado em futebol mas é muito maior do que um jogo. Este capitão oferece-nos golos fenomenais mas é muito mais do que a sua velocidade estonteante. Aquilo que nos fascina é a sua raça, a vontade, a inteligência, a persistência, qualidades que suplantam os defeitos que se lhe possa apontar. Admirar o melhor jogador de futebol do mundo não é frívolo. É uma inspiração. Um dia, diremos aos mais novos que vivemos na era dourada de Cristiano Ronaldo, e que ele levou o nome de Portugal a todos os cantos do mundo.

Em Los Angeles

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