O dia em que os carros vão voar

A Interstate 105 que Los Angeles inaugurou em 1993 era uma maravilha da engenharia, uma autoestrada de dimensões dantescas construída para a modernidade. O fim de uma era, disse-se na altura, quando a grande metrópole do sul da Califórnia completou mais de 50 anos na vanguarda das ligações rodoviárias. Esta rede, com poucas ou nenhumas portagens, continua a ser fenomenal. Tem apenas um problema: o tráfico mais congestionado do mundo.

Não interessa quantas vezes se proceda a um alargamento de vias, a fluidez do trânsito não melhora. LA é o exemplo perfeito do fenómeno de indução da procura, em que a abertura de mais vias leva a um aumento do número de carros na estrada. O problema é grave, com impacto no emprego, na habitação e até nas relações - é comum ver nas apps de encontros que um dos requisitos seja morar a uma distância razoável em termos de tráfego. Não se pergunta a quantas milhas fica um sítio, mas a quanto tempo no trânsito. LA é um inferno na estrada, por isso é aqui que em pouco tempo começaremos a ver táxis no céu.

A primeira vez que ouvi falar de carros voadores achei que alguém tinha visto demasiados episódios dos The Jetsons. A segunda perguntei, a brincar, se bastava dizer Wingardium Leviosa. E agora que já estive dentro de um e vi os planos para os portos aéreos onde vão levantar e pousar, a minha pergunta é outra: poderemos fazer ao horizonte o mesmo que fizemos em terra?

Não tenham dúvidas de que isto vai mesmo para a frente. Há várias empresas a trabalhar neste mercado que parece impossível e a mais bem posicionada para o sucesso é a Uber. Com uma divisão criada para o efeito, Elevate, está a trabalhar com todo o tipo de parceiros - desde a NASA à Embraer - para pôr os primeiros veículos no ar em 2020. As cidades de teste são Los Angeles e Dallas e o serviço UberAir começa a funcionar comercialmente em 2023.

"É preciso suspender a descrença", disse o diretor de produto da Uber, Jeff Holden, durante o evento Elevate que aconteceu em LA com os grandes nomes da indústria. De facto, pensar em apanhar um táxi que voa exige um pouco de imaginação. Mais ainda um táxi que voa, é elétrico e não tem piloto, o propósito último da Uber e de empresas como a Volocopter, que estão a trabalhar neste novo segmento.

Ao ver os planos para portos aéreos no topo de grandes edifícios e os números abismais da procura estimada, mil voos por hora, ponderei se é possível que dentro de alguns anos tenhamos um enxame constante por cima das cabeças. Os eVTOL serão elétricos e silenciosos e não voarão tão baixo como um drone caseiro. Mas se as contas da Uber estiverem certas, nada impedirá que isto se transforme numa indústria maciça, com presença constante de táxis aéreos por cima de nós. "Pode parecer ficção científica, mas na verdade está mais próximo do que vocês pensam", avisou Justin Erlich, diretor de política de tecnologias avançadas da Uber. A empresa está a envolver governos e reguladores e o sentimento que transparece é de grande entusiasmo. Toda a gente quer ver isto acontecer. Quantas vezes temos a possibilidade de mudar completamente a forma como as pessoas se deslocam nas cidades? Será possível que as autoestradas sejam esvaziadas, que os parques de estacionamento se tornem obsoletos, que a posse de um carro venha a ser uma caturrice?

Ouvi um dos participantes no Elevate dizer que, quando lhe foi apresentado o conceito, pensou de imediato que não o apanhavam dentro de uma coisa daquelas nem que lhe pagassem, mas agora está a mudar de ideias. A estratégia da Uber é interessante e o ecossistema está muito empenhado. Dizem que é um imperativo para cidades como LA, onde as infraestruturas de transporte terrestre não conseguem escoar o volume de condutores e passageiros.

O fascinante é estar deste lado a assistir a isto. Terá sido assim que se sentiram as pessoas que trabalharam no primeiro computador pessoal? No primeiro iPhone? É aquele momento antes da onda que precipita a revolução. "Estamos literalmente à beira de usar todo o espaço aéreo, do chão para cima", disse Jaiwon Shin, investigador da NASA. Esta mobilidade urbana aérea vai de certeza mudar comportamentos sociais. Começamos por aqui: a descrença está suspensa e os olhos esbugalhados. É um verdadeiro regresso ao futuro.