Justiça poética

Pensámos que gostarias de rever esta memória de há um ano, disse-me o Facebook, mostrando a capa do Libération que partilhei no rescaldo da eleição de Donald Trump, em 2016. Tem uma imagem obscura do então presidente eleito, com apenas duas palavras a branco: "American Psycho". O primeiro aniversário de uma das eleições presidenciais mais fraturantes da história dos Estados Unidos coincidiu com uma semana de eleições históricas, mas para o outro lado. Na Virgínia, o democrata Ralph S. Northam esmagou o candidato republicano Ed Gillespie na corrida ao cargo de governador, pela maior margem em várias décadas naquele estado. Em Nova Jérsia, os democratas arrancaram o estado das mãos dos republicanos ao darem a posição de governador a Philip D. Murphy. O democrata Bill de Blasio reconquistou o gabinete de mayor em Nova Iorque, apesar de a sua popularidade não andar nos píncaros. Estas conquistas galvanizaram a esquerda, sedenta por vitórias concretas na era da resistência a Trump. O Partido Democrata voltou a enviar e-mails como fazia antes da derrota de Hillary Clinton, pedindo apoio, donativos, voluntariado. As redes sociais encheram-se de celebrações à esquerda e escárnio à direita. A Fox News teve alguma dificuldade em aceitar os resultados, o que se refletiu na parca cobertura da noite eleitoral - o apresentador Sean Hannity falou disso num total de seis segundos.

No entanto, as histórias mais incríveis não vieram destas grandes corridas, que sem dúvida são uma mensagem e terão repercussões na estratégia democrata para as eleições intercalares no próximo ano. Na Virgínia, Danica Roem tornou-se a primeira mulher transexual a ser eleita para a casa legislativa do estado, e só isso é extraordinário. O mais surpreendente é que o fez contra um dos legisladores mais conservadores da Virgínia, Robert G. Marshall, que estava no cargo há 25 anos e que passou a campanha toda a tentar humilhá-la com a sua retórica transfóbica e discriminatória. A própria irmã de Marshall escreveu no Facebook que isto era karma pela forma como o ex-legislador tratou a sua oponente. Num momento de agonia para a comunidade LGBTQ, com diretivas federais que a protegiam a serem removidas pela administração Trump, a eleição de Danica é um sinal de esperança. Sinal de que o progresso social não parou, contra todas as expectativas.

Incrível também foi a eleição de uma ativista negra e transexual, Andrea Jenkins, para a câmara municipal de Minneapolis. E de Ravi Bhalla, um sikh (religião originária da Índia) para mayor de Hoboken, Nova Jérsia. E de uma refugiada liberiana, Wilmot Collins, como mayor da cidade de Helena, no estado do Montana. E de Kathy Tran, de ascendência vietnamita, para a casa dos delegados da Virgínia. Houve tantas corridas ganhas por candidatos de minorias que as maiores histórias desta semana não foram os tweets de Trump nem o seu primeiro ano pós-eleição; foi o estilhaçar de muitos tetos de vidro, aqueles que não se partiram em 2016.

Quando comecei a cobrir os distúrbios que se seguiram à eleição, perguntava a toda a gente se achava que os protestos iam ter resultados concretos ou eram apenas uma expressão temporária de raiva, que iria dissipar-se com o tempo. Doze meses depois dessas noites incendiárias na Baixa de Los Angeles, a resposta é sim, há efeitos colaterais por todo o lado. Organizações de mulheres que lançaram iniciativas de empreendedorismo, organizações de imigrantes que saíram das sombras e estão a lutar pelo que consideram ser os seus direitos, vítimas de assédio a denunciarem os abusadores poderosos, milhares de ativistas que de outra forma estariam sentados no sofá. A divisão entre republicanos e democratas está hoje muito mais assente nas tensões raciais e nas questões sociais do que na tradicional diferença de modelos económicos propostos para o país, e é isso que estes resultados sublinham.

Em janeiro, o republicano John Carman foi para o Facebook gozar com as participantes da Marcha das Mulheres, perguntando se a manifestação acabaria a tempo de elas irem para casa fazer o jantar. Ashley Bennett, sem qualquer experiência política, ficou irritada com as palavras e decidiu concorrer contra ele no condado de Atlantic, Nova Jérsia. Venceu. Fê-lo literalmente engolir o que disse. E se isto não é justiça poética não sei o que possa ser.

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