Dançar com o medo

O vento do porto de Los Angeles esfriava este final de outubro anormalmente quente. Caminhei a passos largos para a entrada, tentando infiltrar-me na massa de gente que sempre escuda o frio súbito quando o sol se põe no outono. Mas as multidões estavam dispersas. Havia a tenda anunciando "Death of a Clown", onde não se percebia quem eram os artistas e quem era o público. Dançava-se naquele palco como se fosse um ritual de exorcismo. A bizarria estava por todo o lado, lembrando a quarta temporada de American Horror Story, Freak Show.

Havia o carrossel que levantava as pessoas no ar e uma praia artificial entre palcos, espalhados pelo recinto de forma completamente aleatória. Estava no Growlers Six, um dos festivais mais estranhos e ecléticos em que alguma vez pus os pés.

Os The Growlers, uma banda californiana cujo som é descrito como "gótico de praia" (beach goth), começaram a organizar festivais de música em celebração do Halloween há alguns anos, noutro local. O ritual das máscaras e a atração pelo medo é algo que define a sociedade americana nesta altura. Não se fala de outra coisa desde o final de agosto. A obsessão com abóboras há muito que tomou conta das prateleiras do supermercado, onde dá para encontrar desde cereais a manteigas com sabor pumpkin spice. Os estúdios da Universal em Hollywood têm esgotado os fins de semana com as já famosas Halloween Horror Nights, uma produção fantástica com labirintos temáticos e muitos gritos. As famílias organizam concursos para ver quem decora a abóbora mais original no ano. Neste ano está a bater--se o recorde de gastos com máscaras e doces, num total previsto de mais de nove mil milhões de dólares. Quase que arrisco dizer que o Halloween é mais popular, neste momento, do que o Natal.

Por isso, um festival ligado ao Halloween com o sabor da praia do Sul da Califórnia faz todo o sentido. Os Growlers montaram um evento que personifica este espírito californiano: sol, calor, palmeiras, sons alternativos, caveiras, marijuana e diversidade. A banda fez uma parceria com a Live Nation e foi assim que conseguiu juntar no mesmo local bandas tão diferentes e exóticas como os Yeah Yeah Yeahs (que deram aqui o primeiro concerto em quatro anos), os lendários B-52s, Modest Mouse, Guided by Voices, Dan Auerbach (dos Black Keyes), Alice Glass (ex--Crystal Castles), Beth Ditto (Gossip), Girl Talk, e muitos nomes de que a maioria das pessoas nunca ouviu falar. Deste alinhamento fabuloso para quem gosta de performances alternativas, o mais interessante foi ver Jonathan Richman. O antigo vocalista dos Modern Lovers é difícil de descrever, com a sua guitarra acústica e Tommy Larkins na bateria. As suas canções são descritivas, não propriamente histórias, e por certo nada encaixáveis no formato tradicional de uma música. Ele canta sobre estarmos sentados ao computador o dia todo, a dar cabo da espinha. Ele canta sobre o Sol, que está a meio caminho de explodir e rebentar com todos nós. Ele larga o microfone e continua a cantar, aparentemente ignorando que já ninguém o consegue ouvir, enquanto ensaia uns passos de dança sensuais ao estilo tio bêbedo num casamento. Richman, que cantava aquelas canções hilariantes no filme There"s Something about Mary (com Cameron Diaz), não encaixa em lado nenhum, o que o liberta para aparecer em todo o lado.

"Toda a gente que encontramos está a lutar uma batalha que desconhecemos", disse Richman, no intervalo de uma das suas músicas caricatas. "Sejam amáveis com todos." Foi uma das poucas mensagens de artistas neste festival, onde Girl Talk entrou como Freddy Krueger e no palco principal os Growlers atuaram vestidos de esqueletos - sem dúvida a imagética favorita desta época. Na audiência, era difícil encontrar alguém que não estivesse mascarado, com uma quantidade inusitada de Wednesdays Addams.

Há algo diferente neste ano, no entanto. Dá a sensação de que as festividades do Halloween subiram a fasquia de uma forma que nunca tinha visto. Uma espécie de resposta aos tempos difíceis que se vivem por aqui, entre escândalos sexuais sucessivos - neste fim de semana foi Kevin Spacey, antes o analista político Mark Halperin, antes disso Harvey Weinstein, a guerra de palavras que se seguiu à morte de quatro soldados americanos no Níger, agora a acusação formal de crimes contra o ex--gestor de campanha de Trump, Paul Manaford. Dia e noite surgem novos episódios revoltantes, clamando pelo fervor dos militantes das redes sociais. As pessoas estão fartas. Por isso desenham caveiras na cara, vestem-se de vampiros ou bruxas, pintam o cabelo de verde à Joker, vão com o chapéu de pirata virar vodka cranberry ao dive bar mais próximo. Nesta reta final do ano, tem-se medo. E dança-se com ele, ao som da new wave dos B-52s.

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